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sábado, 7 de junho de 2014

Um livro de contos dramáticos

É engraçado ou estranho quando conhecemos um autor não pela obra dele mais vendida ou aclamada pela crítica e sim por um livro que não foi tão bem discutido no meio literário. 

Geralmente partimos do livro mais conhecido e, gostando do estilo do autor e da sua forma de narrar, somos seduzidos por ele e partimos, apaixonados, para outras obras. Foi assim que ocorreu comigo em relação ao escritor e médico Drauzio Varella.

Lembro-me quando ele lançou o livro Estação Carandiru pela editora Companhia das Letras. A obra ficou por várias semanas nas listas dos mais vendidos e ele passou a conceder várias entrevistas na imprensa. Drauzio, então, passava a ser mais conhecido pelo que fazia com as letras com o que fazia com os seus pacientes.

Mas eu não conheci o Dr. Drauzio pelo seu livro mais discutido e sim por um título lançado anos depois do aclamado Estação Carandiru. O livro foi o Por um fio, cuja leitura promove uma reflexão sobre como que os pacientes do Dr. Drauzio lidaram com a notícia que possuíam poucos meses de vida devido a uma doença grave como o câncer ou a AIDS.

O livro de 224 páginas, também publicado pela Companhia das Letras, traz ao longo dos capítulos, histórias de como se comportaram os pacientes quando receberam o diagnóstico de uma doença grave e o veredito de que teriam poucos meses de vida. Entremeados nessas histórias, temos flashes autobiográficos do autor, que conta detalhes da sua infância num bairro de São Paulo, a sua relação com o irmão, o curso de medicina entre outros fatos bem interessantes.


Cada capítulo é um conto, uma história diferente de um paciente, que pode ter morrido pela doença diagnosticada ou que tenha alcançado a cura devido algum tratamento administrado pelo médico (lembre-se que o Dr. Drauzio Varella é ateu e não atribui a melhora de nenhum paciente a uma cura divina), mas o que está presente em todas as histórias são a tensão, o drama e até certo ponto a melancolia.

Não há como passar pelos contos sem sentir tristeza e pesar pelo que os pacientes passaram. A forma simples e envolvente da escrita do médico nos coloca, em cada história, dentro da vida do paciente/personagem. Parece que compartilhamos da dor dele como se fosse alguém próximo de nós.

Por um fio é uma bela obra que nos possibilita analisarmos o quão controverso é o ser-humano quando este recebe a notícia que a sua morte está próxima. A leitura do livro também é uma oportunidade de valorizarmos a nossa vida e desfrutá-la a cada instante, pois se formos diagnosticados por uma grave doença e termos os nossos dias abreviados por causa dela, partiremos satisfeitos e seremos, para os que ficaram, um exemplo de pessoa que soube aproveitar bem a vida enquanto teve saúde.

domingo, 6 de abril de 2014

Diálogos deliciosos

O livro Amor Esquartejado, escrito pelo paulista Roger Franchini e publicado pela Editora Planeta, faz parte de dois outros livros em que o autor se utilizou de grandes crimes cometidos na "vida real" como pano de fundo para as suas histórias de ficção policial.



Foi assim com o livro Toupeira - a história do assalto ao Banco Central e Richthofen - o assassinato dos pais de Suzane, este último já lido por mim e com uma resenha aqui neste blog.

O livro Amor Esquartejado tem como pano de fundo a morte do empresário japonês Marcos Matsunaga ocorrida em maio de 2012 em São Paulo. O crime chocou o país, na época, não só pela forma em que morreu o empresário, todo retalhado, mas também pela história do casal, haja vista que a esposa era uma ex-garota de programa e pouco se importou pela vida de luxo em que vivia para se tornar uma criminosa e agora presidiária.

É nessa história horrenda que Franchini desenvolveu o seu livro, mas o leitor não deve esperar uma história cujo foco seja o casal, ou seja, um enredo que conte a história do homem rico, diretor de uma das maiores empresas do Brasil e de uma garota de programa que deixa a vida de prostituta para se tornar uma distinta dona de casa que mora num bairro nobre de São Paulo. Franchini, pelo contrário, aproveita a história para expor mais um pouco os bastidores da polícia civil do Estado de São Paulo, algo que ele começou no seu primeiro livro "Ponto Quarenta" (esgotado) e fez no livro Richthofen.

Por meio de dois personagens policiais, Maurício e Rodrigo, o autor criou uma ficção em que consegue desvelar o que aconteceu dentro dos corredores da polícia judiciária paulista naquela época do sequestro do empresário japonês. A riqueza de detalhes sobre o ofício e o linguajar dos policiais, são fruto do tempo em que o próprio escritor foi investigador de polícia e foram nesses dois aspectos que ele conseguiu prender o leitor numa narrativa menos linear do que ocorreu em Richthofen.

Chamo a atenção aos diálogos deliciosos que permeiam toda a trama. A forma de falar dos policiais é algo que beira o humor. Recheados de palavrões e gírias deixam os diálogos bem interessantes e deixam a narrativa mais leve, mais gostosa de acompanhar e é isso que faz a diferença nos livros policiais escritos por Franchini.

Acredito que o autor poderia ter explorado mais a vida do casal até culminar na morte horrorosa do executivo japonês, como fez no livro Richthofen, onde o escritor se preocupou mais em desvelar o cotidiano da família e dos algozes do casal Richthofen, bem como descrever o clima que pairava na família até a morte prematura do pai e da mãe de Suzane, inclusive com detalhes e descrição muito bem escrita, diga-se de passagem, da morte dos dois.

Franchini poderia, portanto, focar mais o cotidiano do casal formado pela ex-garota de programa e pelo executivo japonês. Isso acabou ficando em segundo plano para contar os bastidores da polícia civil, bem como a guerra que há entre ela e a polícia militar, pouco divulgada na imprensa.

Quando comprei o livro, achei que iria encontrar o que eu li no Richthofen, uma história mais linear, com mais detalhes sobre a família, sobre o casal, as desavenças e as brigas até chegar à morte horrenda do executivo. Como leitor inveterado de livros de terror, esperava detalhes do esquartejamento, de maneira igual a que ele narrou quando da morte dos pais da Suzane, no livro anterior, mas mesmo assim, trata-se de uma obra policial bastante gostosa de ler e que, mesmo não focando o crime em si, dá uma ideia de como funciona a polícia civil do Estado de São Paulo.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Impressionei-me pelas descrições

Assisti ao filme primeiro. Isso ocorreu em 2012, quando o eterno Harry Potter, Daniel Radcliffe, interpretou o jovem advogado Arthur Kipps no longa "A Mulher de Preto", homônimo livro escrito pela britânica Susan Hill.

Na época gostei do longa e me interessei pelo livro. Saí do cinema com o desejo de comprá-lo, mas como a sessão tinha começado muito tarde, a única livraria do shopping já estava fechada. Até hoje não entendo como as editoras deixam de faturar ainda mais, se fizessem uma parceria com os cinemas.

Defendo que filmes baseados em livros deveriam ser vendidos diretamente para o frequentador do cinema, numa espécie de lojinha dentro do cinema, ou por falta de espaço físico, isso poderia ser feito na área da venda de pipocas. A maioria dos filmes acaba sendo a porta de entrada de leitores que passam a se interessar pelo livro em que se baseou o filme e isso impulsiona a venda dos livros. O cinema poderia também fazer uma parceria com a livraria que existe no mesmo shopping em que ele está para que ocorresse a venda, ou a pessoa que assistiu ao filme baseado no livro, poderia conseguir um desconto no preço de capa apresentando o tíquete do cinema. Enfim...

Como eu escrevi no post anterior, a vida de professor impossibilita-nos, na maior parte, de assistirmos os filmes que passam no momento e de ler os livros que foram lançados no momento. Acompanho a maior parte dos lançamentos de filmes e livros, mas comentá-los faço isso muito mais tarde, devido o montante de atividades que eu tenho para dar conta como professor.

Com o livro "A Mulher de Preto", publicado pela editora Record, ocorreu um atraso de dois anos para que eu conseguisse ler a obra. Decidi ler o livro dias atrás, com uma brecha nas minhas atividades docentes. Comprei uma edição digital e passei a lê-lo, algo que me levou apenas alguns dias devido à boa qualidade da narrativa.


A história foi muito bem narrada, com muitos ingredientes que pertencem a bons livros de terror. O que me chamou a atenção foi o poder de descrição da autora. Descrição dos personagens, dos seus sentimentos, das paisagens, dos lugares por onde os personagens passaram e das situações de terror vivenciadas pelo protagonista, o jovem advogado londrino Arthur Kipps.

Kipps mora em Londres e é designado para ir até uma cidade no interior da Grã-Bretanha acompanhar o enterro de uma senhora que morava num local afastado da cidade. Além de acompanhar o enterro, o advogado deveria trabalhar na casa em que ela morava para organizar alguns documentos e remetê-los para o escritório que ficava em Londres, mas a partir do momento em que Kipps chega à cidade e coloca os pés na velha e sinistra casa localizada próxima a um brejo assustador, a vida dele passa por algo assustador e que o acompanhará por toda a sua vida.

A história foi estruturada cuidadosamente pela escritora. Todas as questões que envolvem os personagens, a casa e a cidade que surgem ao longo da história deixam o leitor preso ao livro. Uma por uma das questões e dos mistérios são respondidos, sempre de forma tensa, ao longo do livro.

E a tensão é algo que perpassa toda a história, da mesma forma que ocorreu no filme. O livro é sombrio, tenso e assustador. O resultado não poderia ser outro: despertar no leitor o medo. É tão satisfatório e agradável quando lemos algo tão bem escrito que desperta em nós a ansiedade, a tensão e o medo, sentimentos que os leitores de terror apreciam e buscam nas obras.

Acabei de crer que os bons escritores de terror pesam as mãos nas descrições, tudo para envolver o leitor e colocá-lo sempre numa atmosfera de apreensão, de ansiedade, de mistério e de suspense, antes de apresentar situações que o colocarão num estado de medo e que o desestabilizará por alguns segundos, horas e até dias! Isso seguramente "A Mulher de Preto" consegue provocar, como os bons livros de terror que eu li recentemente, como "O Cemitério", de Stephen King, "A Profecia", de David Seltzer e o "Horror em Amityville", de Jay Anson.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Casagrande revelado

Se embrenhar nas páginas de Casagrande e Seus Demônios, escrito pelo jornalista Gilvan Ribeiro e publicado pela Globo Livros, é conhecer a trajetória de Walter Casagrande Júnior, jogador que fez história pelo Corinthians.

Casagrande teve o seu problema com o uso de drogas exposto pela mídia poucos anos atrás. O caso veio se tornou público recentemente pela veiculação promovida pela imprensa, mas o uso que o jogador fazia da cocaína era bem mais antigo. 


Vários detalhes sobre a iniciação de Casagrande no mundo das drogas até ele se tornar um viciado, bem como a sua trajetória pessoal e profissional, são contados no livro com uma boa riqueza de detalhes.

Destaco no livro o capítulo sobre a overdose que o ex-jogador teve dentro da sua casa e sobre a atuação dele contra a ditadura militar brasileira, ocasião em que esteve à frente, junto com o ex-jogador Sócrates, na condução da "Democracia Corintiana", uma provocação contra aquele regime de exceção. 

A biografia de Casagrande foi narrada por ele mesmo para o jornalista Gilvan Ribeiro, que manteve a forma como o ex-jogador se expressa, inclusive, com o uso de vários palavrões, mas esse detalhe em nada atrapalha ou rebaixa a qualidade do livro, pelo contrário, imprime fluidez a linguagem e na maior parte do tempo parece que o leitor está conversando com o próprio Casagrande pessoalmente.

Em tempos de censura às biografias, em que os biografados parecem temer que contem aspectos obscuros das suas vidas pelos biógrafos, Casagrande parece não ter se intimidado em contar várias passagens da sua vida, algumas felizes e as outras muito tristes. 

A grande mensagem que o livro deixa é o quanto que o uso de entorpecentes destrói a vida de um ser humano. O prazer momentâneo trazido pela droga também deixa para a vida de quem a usa, a dor, a perda da dignidade, a dilaceração dos relacionamentos entre outros, quando não a morte.

Ainda bem que Casagrande despertou a tempo e não optou em seguir um caminho de destruição e de dor. Reconheceu que estava doente e pediu ajuda. O mais bacana foi que a TV Globo não o demitiu guardando o seu cargo para que o ocupasse quando estivesse melhor. Isso fez muita diferença na vida do ex-jogador, que revelou que encontrou no trabalho na TV Globo, uma forma de se sentir útil e de ser valorizado, afastando o desejo de voltar a utilizar droga.

Apesar da aparente normalidade, o ex-jogador vive hoje numa situação em que precisa controlar a ansiedade e lidar com as frustrações e o nervosismo comuns a vida de todo o mortal. Para quem foi um ex-usuário, qualquer motivo pode ser a desculpa para voltar a usar drogas, mas Casagrande tem essa consciência e continua se submetendo a um tratamento com duas psicólogas, além de trabalhar muito, sorte nossa que podemos acompanhar os seus bons comentários pela TV.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Esperava mais

O jornalista carioca Marcelo Araújo começou a sua carreira literária ao lançar um livro com onze contos, em 2009, intitulado Não Abra - Contos de Terror, publicado pela editora Thesaurus. Pela mesma editora, em 2011, o autor lançou o seu segundo livro, Pedaço Malpassado, que contém dois contos. 

Também pela Thesaurus, no final de 2012, o autor lançou o seu terceiro livro, A Maldição de Fio Vilela. Diferente dos outros dois que reunia contos, nesse o autor se dedicou estritamente a desenvolver uma única história, que se passa na zona rural de um pequeno município carioca e envolve uma família assombrada pela presença de um estranho chamado Fio Vilela.

Fonte: Editora Thesaurus

O argumento do livro é muito interessante, mas o autor não soube explorá-lo com profundidade, deixando para o leitor uma história superficial e de um suspense fraco. Ao ler a história, pude perceber mais o trabalho do escritor contista do que o romancista.

Por ser um contista, Marcelo Araújo imprimiu no seu mais novo texto, as características daquele que escreve conto, como a não preocupação de desenvolver mais os personagens (somente são descritos as características físicas dos personagens), detalhamento do local onde se passa a história (no livro, não temos sequer o nome do município onde se desenrola a história), aprofundamento da trama e mais situações de tensão, perigo e horror.

Assim, considero o livro uma novela, ou seja, um conto com uma extensão maior. Acredito que daria para o autor explorar mais as cenas, colocar mais tensão, mais suspense, mais terror. As cenas que eu esperava que isso acontecesse, os personagens simplesmente passaram por ela sem maiores detalhamentos, sem maiores sobressaltos, deixando a história um quanto frouxa.

O autor privilegiou uma grande quantidade de diálogos, alguns desnecessários, que poderiam dar lugar a construção de um texto mais denso, mais assustador e com muito mais tensão. Se ao invés de alguns diálogos, Araújo se detivesse em elaborar melhor um clima ao detalhar uma cena, um personagem ou um local, por exemplo, a história ganharia mais qualidade.

Adorei o vilão Fio Vilela e creio que faltou, conforme indiquei acima, explorá-lo mais, tal como aconteceu com os outros personagens. As únicas cenas um pouco assustadoras, se deram, de fato, com a aparição de Vilela, mas foram cenas rápidas, superficiais, infelizmente.

O final da história foi bem construído, apesar de várias perguntas não terem sido respondidas, mas acredito que isso foi um artifício do autor em deixar que cada leitor desse um fechamento conforme a sua imaginação.

O encerramento do livro deixa claro que haverá uma continuação. Seria muito bom o escritor continuar a história e aproveitar para aprofundar mais o enredo. Quem sabe esse livro tenha sido somente uma introdução rápida para uma história que se desdobrará e se mostrará mais terrível e sombria ainda. Torço para que isso aconteça.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Você quer mesmo ser jornalista?

Já escutei e li de muitos jornalistas diversas lamentações sobre a profissão, que iam desde as poucas vagas de trabalho, a existência de um exército de reserva causador dos achatamentos salariais, a carga horária desregrada e a estafa produzida por isso até a eliminação - por hora - da exigência do diploma para o exercício da profissão. Tudo isso comprovei no livro Jornalista, da série Profissões, publicado pela Publifolha.


O livro aponta somente percalços e deixa de lado os pontos positivos da profissão, aspectos que existem em todas as profissões ("os dois lados da moeda") e que deveriam ser abordadas pela obra. Nesse sentido, o livro transmite a ideia de que o jornalismo é somente uma área desgastante, mal remunerada e que qualquer um pode ingressar nela, pontos que eu concordo em partes.

Destaco a primeira parte do livro, que oferece um panorama histórico dos meios de comunicação (jornal, rádio, televisão e internet), bem como um breve histórico da profissão de jornalista no Brasil. Em poucas folhas que proporcionam uma leitura fluída devido ao emprego de um vocabulário simples, é possível o leitor conhecer um pouco mais sobre a história da profissão que ele poderá seguir.

Nos capítulos seguintes inicia-se o "terrorismo" contra a profissão, com textos que indicam o quanto é difícil e não valoroso trabalhar como jornalista. A trégua com o terrorismo somente acontece no último capítulo. Três conhecidos e importantes jornalistas contam as suas trajetórias pessoais e profissionais e nos oferecem um depoimento sobre a profissão, com um otimismo não encontrado nas páginas anteriores. O que é unânime nos três depoimentos é que a graduação de jornalismo é importante, mas não fundamental para a formação de um profissional. Outros aspectos têm um peso maior que aliado a um curso universitário farão a diferença para os que querem ser jornalistas. Destaco apenas dois: muita leitura (ela deve ser diversificada; jornais e revistas são essenciais!) e domínio de uma língua estrangeira (nem preciso comentar sobre a Língua Portuguesa, né?).

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O raio-x de três grandes acidentes aéreos brasileiros

Num trecho do filme "O curioso caso de Benjamin Button", o protagonista ao explicar o porquê da sua amada ter sofrido um acidente que lhe causou algumas fraturas e arranhões, chega à conclusão que devido ao encadeamento de "uma série de eventos e incidentes interligados que não se pode controlar" a moça sofreu o atropelamento. 

A conclusão do personagem acima se aplica a qualquer aspecto da vida, principalmente nos acidentes aéreos, cuja sucessão de vários acontecimentos interligados uns aos outros e que não se pode controlar ou muitas vezes se pode controlar, mas por algum motivo não é controlado, sempre acaba por resultar em grandes tragédias.

Por mais que a tecnologia existente e a capacitação dos profissionais que trabalham com aviação permitem que os erros praticamente não aconteçam, vez ou outra tomamos conhecimento que um erro gera outro, que gera outro, que gera uma sucessão e isso forma uma série de erros que culminam num acidente aéreo.

A série de acontecimentos ingratos que causaram três dos mais trágicos acidentes aéreos brasileiros pode ser observada no livro Perda Total, do escritor carioca Ivan Sant'Anna e publicado pela Editora Objetiva.
O livro disseca o que ocorreu na tragédia dos voos TAM 402 (31/10/1996 - 99 mortos), GOL 1907 (29/09/2006 - 154 mortos) e TAM 3054 (17/07/2007 - 199 mortos).

Ao longo das páginas, o leitor encontra uma miscelânea de termos técnicos que fazem parte da aviação, o que poderia deixar a leitura cansativa, mas isso não ocorre, pois com bastante didatismo, o autor explica cada termo, facilidade adquirida pela experiência dele como piloto amador e por ser um apaixonado pela viação.

Cada tragédia é narrada com uma riqueza de detalhes, resultado de uma pesquisa profunda junto aos inquéritos policiais e da força aérea brasileira, manuais dos aviões fornecidos pelos fabricantes e entrevistas com os familiares das vítimas. Por causa do grande número delas, o autor se restringiu a contar a história de apenas cinco vítimas de cada voo.

O diferencial de Perda Total é não ser uma obra que apenas relata como foram os acidentes e fornece frias estatísticas. O autor vai além disso. Fornece detalhes das tragédias. Conta minuciosamente o que ocorreu antes, durante e depois dos acidentes, com as transcrições das caixas-pretas, detalhes técnicos, relatos de testemunhas e a história de vida de algumas pessoas que estavam em cada voo.

Ivan Sant'Anna teve o cuidado de apurar cada informação e cada detalhe. Soube majestosamente dosar essas informações ao longo da sua escrita para não deixar a leitura tediosa. 

Após ler o livro, o leitor chegará à mesma conclusão do personagem Benjamin Button, de que a vida é cheia de eventos que se sucedem e que não podemos controlar. Esses eventos, que deveriam sem controlados na aviação tamanha a tecnologia empregada nela, bem como o alto nível de capacitação daqueles que trabalham nela, muitas vezes, escapam de qualquer controle e, ao sabor do acaso, causam centenas de mortes, como as que o leitor encontrará em Perda Total.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Além de uma simples história infantojuvenil

A paulista Maria José Dupré é sempre lembrada pelo seu romance adulto "Éramos Seis", publicado em 1943 e que recebeu inúmeras adaptações para o cinema e para a televisão. A mais conhecida foi a novela homônima produzida e exibida no SBT entre maio e dezembro de 1994 e que particularmente eu considero a melhor novela produzida até então pela emissora de Sílvio Santos.

Mas a escritora também tem uma grande quantidade de livros publicados para o público infantojuvenil, destacando a série de livros cujo protagonista é um cachorrinho que rodou alguns locais brasileiros chegando, pasmem!, até a Rússia. Trata-se do cachorro Samba, personagem principal de seis livros, publicados entre as décadas de 1950 e 1970.

O auge da carreira da escritora ocorreu na década de 1940, época em que ela escreveu a maioria dos seus livros adultos e infantojuvenis. Foi nessa década que foi publicado o livro "A Ilha Perdida" que integra o bem sucedido projeto da série "Vaga-Lume", organizado pela Editora Ática.


Entre os escritores é quase unânime a ideia de quão difícil é escrever para o público jovem. Muitos têm na mente que as suas histórias obrigatoriamente deverão deixar alguma mensagem de ordem moral para os jovens, por exemplo, mas eu acredito que a literatura infantojuvenil, na sua essência, não tem essa pretensão, apesar de observar que isso ainda paira na cabeça de muitos escritores.

Deve-se transmitir uma mensagem ou não para o jovem, compreendo que é um desafio atingir esse público. Por isso, que de vez em quando, seleciono para a minha leitura, livros infantojuvenis na tentativa de analisar aspectos técnicos da história, como, por exemplo, como que o autor costurou a história, desenvolveu a trama, construiu os diálogos, os personagens, o contexto, as paisagens entre outros. Daí a minha leitura da obra "A ilha perdida".

O livro é uma aventura ambientada no interior de São Paulo, aonde duas crianças foram passar as férias e se encantaram por uma ilha misteriosa no meio de um caudaloso rio. Decidem, então, explorar a ilha por conta própria iniciando uma aventura emocionante, cheia de suspense, perigos e tensão, aspectos que permearão toda a história. 

Da metade da obra até o final, o leitor fica tenso e ansioso sobre o que acontecerá com as duas crianças. Sozinhas numa grande ilha deserta passam por situações bem complicadas. Essas situações são exploradas muito bem pela autora como forma de deixar várias mensagens de cunho moral para o leitor, como obediência aos mais velhos, respeito aos animais e vegetais e a preservação da natureza, temas que depois de 69 anos da publicação do livro ainda são discutidas em nossa sociedade. 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Um escritor apaixonado pela pauliceia desvairada

Se algo devo ter fixado neste livro, deixado explícito, pelo menos tentei, foi a luta de um escritor, que não veio das camadas privilegiadas da sociedade, para manter seu ideal, apesar de todas as suas adversidades
Marcos Rey

É mais comum lermos biografias escritas por terceiros. Inclusive, há tempos existe uma polêmica sobre esse gênero literário, pois alguns escritores acabam por divulgar fatos, até então encobertos, da vida alheia de alguém sem ter sido autorizado para tal. Daí o início de batalhas judiciais contra o escritor, promovidos quase sempre pela família do biografado ou pelo próprio biografado. 

Fonte: Global Editora

Uma forma de evitar dissabores causados por biografias, muitas vezes escritas sem muito rigor na pesquisa sobre os fatos da vida de uma pessoa, é a própria pessoa se debruçar sobre o seu passado e produzir uma autobiografia e foi isso que o escritor Marcos Rey fez em 1997, quando lançou o seu livro autobiográfico O caso do filho do encadernador - romance de vida de um romancista, publicado pela Global Editora.

A obra, além de nos inserir na trajetória pessoal e profissional do escritor, nos possibilita entender o processo de chegada do rádio, da televisão e das agências de publicidade. Marcos Rey trabalhou nesses três ambientes e colecionou várias histórias que foram, mais tarde, matérias-primas para o desenvolvimento de vários de seus romances, contos e crônicas. 

Como estudante de jornalismo, apreciei o relato do escritor sobre os bastidores do rádio e da televisão. Desde sempre ambientes muito glamorosos, mas muito hostis para os redatores, que eram demitidos ao menor sinal de baixa audiência (parece que isso não mudou muito nos tempos atuais).

Quando admiramos um grande autor, temos por curiosidade saber quais os escritores que os influenciaram. Para descobrirmos, nada melhor que lermos uma biografia e com Marcos Rey não foi diferente. O escritor ao longo do livro vai nos informando os livros e os nomes dos autores que tiveram influência em sua formação. O que eu mais admirei foi a grande quantidade de autores estrangeiros em detrimento dos nacionais, estes, limitados a alguns poetas.

Tempos atrás pensei que o escritor era especialista em romances juvenis, mas com a leitura da presente autobiografia, descobri um autor profícuo e versátil, que transitou em praticamente todas as modalidades textuais pertencentes ao gênero narrativo, como o romance, a novela, o conto e a crônica. 

É um autor que eu estou ainda por descobrir e essa descoberta já foi iniciada com O caso do filho do encadernador, que traz no final várias páginas com todas as suas produções. Sem dúvida, se Marcos Rey ainda estivesse vivo, as últimas páginas da sua autobiografia a cada nova edição precisariam ser aumentadas pela rapidez com que ele escrevia e publicava novas e gostosas histórias, sempre tendo a cidade de São Paulo como pano de fundo, cidade que fez sua vida e pela qual se apaixonara.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Um romance infantojuvenil, mas também para os adultos

Ainda não sabia ler quando eu peguei pela primeira vez em minhas mãos o livro O mistério do cinco estrelas escrito por Marcos Rey.

A capa com um prédio e a sombra de uma mão empunhando uma faca nele com o rosto de um garoto assustado no primeiro plano, me chamou a atenção (e alguns dizem por aí que uma capa não faz muita diferença num livro). Ao folheá-lo, lembro-me que fiquei por vários minutos olhando as figuras e, a partir delas, fui elaborando a história em minha mente.



Anos depois, já alfabetizado, tive a oportunidade de ler o livro. A história me fascinou pelos elementos de suspense, ação, aventura e de investigação policial, tendo como pano de fundo a cidade de São Paulo. Marcos Rey sempre foi um apaixonado pela cidade e de uma forma ou de outra, na maioria dos seus livros, buscou homenageá-la. O seu amor por São Paulo era tão grande, que ao morrer, a sua esposa, do alto de um helicóptero, decidiu jogas as cinzas de Marcos Rey sobre a cidade que sempre o inspirou a escrever.

O livro é direcionado para o público infantojuvenil, mas de forma alguma isso é um impeditivo para os leitores mais maduros apreciarem a história, que se desenrola de uma forma que prende o leitor pela atmosfera de mistério construída pelo autor.

Tudo começa com um corpo encontrado por um jovem mensageiro num quarto de um famoso e rico hóspede de um luxuoso hotel de São Paulo. Mas de quem seria aquele corpo? Qual o motivo dele estar ali, debaixo da cama de um homem rico e famoso? Alguém acreditaria na história contada por um jovem mensageiro?

A partir daí a história se desenrola de forma impressionante. Leo, o novato mensageiro do hotel resolve investigar por conta própria e faz descobertas incríveis que tornam a sua vida um verdadeiro inferno. A história, então, torna-se bastante tensa e isso é levado até o fim dela. Sempre fica a sensação de que algo surpreendente vai acontecer. A ansiedade e a expectativa leva o leitor a sempre querer saber mais e isso faz com ele devore os capítulos.

No livro autobiográfico de Marcos Rey, O caso do filho do encadernador3ª ed., São Paulo: Global, 2012, num trecho (p. 219) o autor comenta sobre o livro:

"Dois meses após o lançamento de O mistério do 5 estrelas, Anderson [dono da editora Ática] me comunicava: a primeira edição esgotava-se, já iam rodar mais 100 mil exemplares. Segundo alguns jornais, foi o best-seller daquele ano de 1981, e até os dias de hoje vendeu um milhão de cópias.

Grande vendagem não assegura que um livro seja bom; muitas vezes prova até o contrário. Mas no meu caso o êxito apontou-me um novo caminho e uma grande fonte de prazer. Passei a escrever anualmente um romance para a juventude".

Nessas férias resolvi reler o livro e também ler a autobiografia do autor (O caso do filho do encadernador) comprada no estande da editora Global no último dia da Bienal Internacional do Livro de São Paulo ocorrida no ano passado.

Foi maravilhoso reler O mistério do 5 estrelas. A cada livro que nós relemos, acabamos descobrindo uma nova história e elementos presentes na narrativa que anteriormente não havíamos prestado atenção. Nessa releitura, pude perceber o quanto o autor escreve de forma ágil, prática e de fácil entendimento. É uma linguagem simples, mas profunda. Num livro de apenas 128 páginas, o autor conseguiu construir uma história envolvente, sem sobressaltos, sem idas e vindas e descrições desnecessárias de ambientes e dos personagens. 

Também li, em seguida, o livro O caso do filho do encadernador, que é a autobiografia do autor. Conheci um pouco mais da vida desse criativo e profícuo escritor paulistano, que somente conseguiu, enfim, viver de literatura num país que se lê tão pouco, quando já estava próximo dos seus 60 anos. 

Morreu em 1º de abril de 1999, aos 74 anos e deixou uma grande variedade de outros romances adultos e infantojuvenis, crônicas e contos que eu pretendo ler. Enfim, é um escritor que ainda eu quero descobrir.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Os bastidores da polícia e os bastidores de um crime brutal

O trabalho como investigador de polícia durante alguns anos possibilitou a Roger Franchini entender o ambiente hostil presente dentro das delegacias e departamentos que constituem a Polícia Civil do Estado de São Paulo. Somente quem vivenciou esse universo poderia descrevê-lo de uma forma tão detalhada como a que aparece no livro Richthofen - O assassinato dos pais de Suzane, publicado pela Editora Planeta em 2011.

Ao longo das 192 páginas, temos contato com uma polícia que apenas conhecemos pela televisão ou quando vamos até uma delegacia fazer um boletim de ocorrência. Franchini nos traz a visão de outra polícia, recheada de trambiques e troca de favores. Mas o foco do livro não é sobre os bastidores da polícia paulista e sim sobre o assassinato do casal Richthofen, que preencheu por longo tempo as páginas policiais dos jornais.

O livro é uma ficção baseado em fatos reais, no caso, o crime cometido pela filha mais velha do casal, Suzane, e os irmãos Cravinhos. Apesar de ser uma ficção, a todo o momento parece que eu estava lendo um livro-reportagem, algo que narra o mais breve possível da realidade um fato ocorrido. Essa impressão ocorre porque o livro contou com uma extensa pesquisa antes de ser escrito. Vale lembrar que o autor teve acesso aos autos do processo, que é algo público, mas cujo cidadão comum não tem paciência com a burocracia para acessá-lo e o traquejo jurídico para lê-lo e interpretá-lo.

A leitura desenvolve-se de forma agradável devido à forma que o autor escreve: com gírias utilizadas pelos policiais e pelos cidadãos comuns, pela descrição das cenas que envolvem o relacionamento conturbado que Suzane tinha com os seus pais e o relacionamento dela com os irmãos Cravinhos. 

Capítulo a capítulo vamos entendendo um pouco da vida de Suzane, da família Richthofen e da família Cravinhos, até tudo se entrelaçar e culminar no assassinato brutal dos pais de Suzane descrito no último capítulo que, para mim, é o melhor capítulo do livro. Eu que gosto de livros de terror e de suspense, a cena descrita magistralmente pelo autor me colocou dentro do quarto do casal, como se eu fosse um cúmplice dos criminosos, além de ter me deixado angustiado e horrorizado com tudo aquilo que ocorreu na noite do dia 31 de outubro de 2012.

Pela qualidade do livro, fiquei ansioso em conhecer os outros três escritos pelo autor, muito bem comentados nas redes sociais: Ponto Quarenta - A Polícia Civil de São Paulo para leigos, Toupeira - A história do assalto ao Banco Central e Esquartejado - A investigação do assassinato do executivo japonês, sendo o último livro, lançado no final do ano passado.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Uma introdução à indústria cultural



Talvez você nunca tenha tomado conhecimento da expressão indústria cultural, mas sem dúvida, você faz parte dela ao ser consumidor dos vários produtos produzidos por ela.  É justamente essa tomada de consciência por parte das pessoas, que propõe o livro Indústria Cultural, escrito pelo Prof. Dr. Marco Antônio Guerra e pela Prof.ª Dr.ª Paula de Vincenzo Fidelis Belfort Mattos, ambos da Universidade São Judas Tadeu, instituição que também fez a publicação do livro.

A obra, de 55 páginas, configura-se no todo uma introdução ao tema da indústria cultural, mas acredito que a ideia dos autores foi mesmo apenas introduzir o leitor no assunto, despertando-o para uma realidade que muitas vezes ele desconhece.

O uso de uma linguagem simples, com citações de alguns teóricos para fundamentar as ideias dos autores e um texto recheado de exemplos, possibilita de forma descomplicada o entendimento de qualquer leitor sobre a indústria cultural, que ao final do livro, terá plenas condições de refletir e criticar sobre ela.

Ao longo do livro, o Prof. Guerra e a Prof.ª Mattos lançam algumas críticas negativas à indústria cultural, mas evitam conduzi-la a um papel de vilã. Também há críticas positivas. 
Esses contrapontos subsidiam o leitor a chegar a uma reflexão e uma conclusão, que cabe essencialmente a ele, já que ao final do livro, não há a conclusão pelos autores de tudo o que foi discutido. Se a indústria cultural é boa ou é ruim, isso carecerá da reflexão de cada leitor.

O livro é dividido em seis capítulos.
Antes do primeiro, temos uma brevíssima introdução em forma de tópicos, colocam alguns conceitos importantes para que o leitor comece a entender os mecanismos da indústria cultural. Conceitos como indústria cultural, coisificação, midicult e outros aparecem nessa parte do livro.

No primeiro capítulo, Cultura e Indústria Cultural, os autores trazem primeiramente o conceito de cultura e discutem a indústria cultural como produtora de cultura com o objetivo de se alcançar e conquistar mercados. Também há a discussão sobre a validade da visão maniqueísta que muitos têm da indústria cultural. Segundo os autores "existem produções que não se ligam à indústria cultural e nem por isso possuem qualidade de repertório ou estética. Não é o distanciamento da indústria cultural que vai possibilitar a qualidade do produto cultural". Os autores concluem o capítulo informando que "[...] ao se pensar em indústria cultura é necessário que não se perca de vista o questionamento de até que ponto é ruim e até que ponto é bom este processo".

No segundo capítulo, A Indústria Cultural veio para ficar? há a discussão da abrangência da cultura de massa e a possibilidade de tudo que existe ser coisificado e, assim, se tornar um produto para ser vendido no mercado. Por último, se discute a cultura como instrumento capitalizável, ou seja, com potencial enorme dela reverter dinheiro para a burguesia. Os escritores concluem o capítulo da seguinte forma "A burguesia só se interessa pela cultura, quando percebe que é capitalizável. E, para que funcione, é necessário estendê-la a um maior número possível de pessoas. Adquirir cultura dá status e reconhecimento de poder, principalmente com relação a objetos raros e valiosos".

O terceiro capítulo, Indústria Cultural e Mídia, discute-se a relação entre a indústria cultural e as mídias que foram surgindo ao longo do tempo. Segundo os pesquisadores, "Com a Revolução Industrial e os mecanismos de reprodução é que surge o conceito de mídia, pela necessidade de estimular o consumo. A indústria cultural estará associada a essa informação". As mídias analisadas são os jornais/folhetins, rádio, cinema e televisão. No final do capítulo há uma análise sobre o cinema brasileiro e sobre as novelas brasileiras enquanto produtos da indústria cultural.

O quarto capítulo, Verdades e Mentiras sobre o Midicult, deteve-se na análise do midcult, que é diferente do masscult por trazer elementos da cultura superior. Porém, a cultura superior nesse caso é diluída, transformada e facilitada para ser consumida. De acordo com os autores, "o midicult propõe 'o conhecimento acessível a todos', e a indústria cultural cria formas para que isto se concretize". Com inúmeros exemplos, Guerra e Mattos deixam bem claros o entendimento desse fenômeno tão bem explorado pela indústria cultural para alavancar somas cada vez maiores de lucros.

No penúltimo capítulo, Anos 70 no Brasil - Estado, Cultura e Indústria Cultural, os autores abordam um dos períodos mais difíceis por qual o Brasil passou nas últimas décadas, que foi a Ditadura Militar. Junto com esse sistema de governo, veio à censura à arte, à imprensa e às manifestações públicas visando impedir o registro das interpretações da cultura brasileira daquele momento. Isso fez com que os artistas no momento da criação, se utilizavam de subterfúgios para que as suas obras fossem aprovadas pelo órgão censor. Nesse capítulo foram analisados a música, o cinema e a literatura, enquanto formas de arte que tiveram que se reinventar para passaram pelo crivo da censura.

No último capítulo, Um uso consciente de Indústria Cultural - A Tropicália temos a análise do movimento tropicalista surgido no Brasil no final da década de 1968. O movimento abrangeu várias manifestações estéticas e pretendia uma revolução de costumes e de comportamento. Extrapolou o campo da música, inserindo-se no campo ideológico, da moda e de outras manifestações artísticas. Uma das suas intenções era além de fazer uma crítica, considerada leviana por alguns, ao regime militar, resgatar as ideias do movimento antropofágico das décadas de 1920 e 1930. Num primeiro momento configurou-se contra a indústria cultural (pelo resgate a uma cultura puramente nacional, recusando a aceitar elementos estrangeiros), mas num segundo momento, o movimento utilizou-se da própria indústria cultural para disseminar toda a arte defendida por eles. Por isso que nesse capítulo, há a afirmação que o Tropicalismo fez um uso consciente, "um bom uso" da indústria cultural para levar a todas as pessoas a sua ideologia, a sua estética e claro, o seu protesto.


A leitura do livro é essencial para começarmos a entender o fenômeno da indústria cultural e a partir daí, termos condições de sabermos como lidar com ele, pois o seu grau de influência na vida da sociedade é muito grande. Recomendo a leitura do livro principalmente pelos estudantes dos cursos de Publicidade e Propaganda e Jornalismo.

Os publicitários precisam entender o funcionamento dessa indústria que movimenta bilhões de dólares para que eles possam lançar produtos que também façam parte dela, já que o retorno financeiro é algo quase garantido. Já os jornalistas precisam conhecê-la também, haja vista que muitas das modinhas e comportamentos da sociedade são frutos da indústria cultural que com a sua força brutal, homogeneíza gostos literários, musicais, entre outros.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Uma nova luz a "Tragédia da Piedade"


Depois que eu assisti novamente no ano passado a minissérie Desejo, produzida e exibida pela Rede Globo no começo dos anos 1990, despertou-me o desejo de conhecer mais profundamente a vida e a obra do escritor Euclides da Cunha, as pessoas que fizeram parte da sua curta vida, bem como entender melhor o episódio que levou a sua morte, chamado de "Tragédia da Piedade". Para tanto, nada melhor que ler um livro escrito por uma historiadora, e não é qualquer historiadora, trata-se da Prof.ª Dr.ª Mary Del Priore.

Os historiadores possuem o preparo de realizarem, com maestria, pesquisas históricas, escarafunchar documentos históricos e refazerem, com sucesso, o passado. E isso não foi diferente em Matar para Não Morrer - A morte de Euclides da Cunha e a noite sem fim de Dilermando de Assis, Ed. Objetiva, que conta com uma ampla pesquisa engendrada pela professora, para trazer mais detalhes sobre a tragédia que abalou o Brasil no início do século XX.

Analisando a bibliografia presente no final do livro, dá para termos uma ideia do trabalho que a professora teve para reunir as informações e elaborar o livro, que traz não só a história da morte do escritor Euclides da Cunha, como detalhes da sua conturbada vida com sua esposa,  Ana Cunha, os seus filhos e os irmãos Dinorah e Dilermando de Assis.

Mas o foco do livro é mesmo a vida do algoz de Euclides da Cunha, o general Dilermando de Assis, jovem que teve um relacionamento com a mulher do escritor culminando numa tragédia que vitimou o autor da obra prima "Os Sertões".

Ao longo do livro, a historiadora também traz acontecimentos nacionais e internacionais contemporâneos a história, que se passa no final do século XIX e início do século XX. Além disso, há a descrição de costumes da época, da política nacional, dos personagens de grande relevância nacional e, principalmente, as características de um Rio de Janeiro que estava num efusivo processo de urbanização.

A professora Del Priore não escreveu o livro para "limpar a barra" de Dilermando, tentando pelo seu texto inocentá-lo do crime que comoveu o país na época, mas sim, fazer um estudo sobre quem foi o algoz da família Cunha e deixar o julgamento para cada leitor, mas algo deve ficar claro. 

O ato tresloucado de Euclides, que foi em busca de Dilermando disposto a matar ou morrer, foi um espelho da sociedade vigente naquela época, algo comum, onde a honra era lavada com sangue. Euclides, não foi exceção numa época em que outros milhares de homens pegaram em armas para tentarem limpar os seus nomes.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Farsantes & Fantasmas, de Antonio Carlos Olivieri

Acostumado a publicar livros paradidáticos e ficcionais infanto-juvenis, dessa vez o escritor Antonio Carlos Olivieri publicou pela Editora Record uma obra ficcional voltada para o público adulto. Trata-se do livro "Farsantes & Fantasmas", lançado em abril de 2012.


A obra é um romance policial escrito de forma divertida que conta os bastidores da produção editorial de um livro. Como todo livro do gênero policial, temos um crime, a figura de um detetive e um suspeito. Mas a tônica do livro não é essa, sendo que esse entrelaçamento entre o crime, o suspeito e o detetive, somente ocorre nos capítulos finais da trama. 

O pano de fundo da história é a vida de Moreira, mais especificamente o seu trabalho como ghost writer (escritor fantasma). Ele é um jornalista que trabalha para um inescrupuloso dono de uma editora, o Zé Augusto Pavão Lobo, e é a partir dessa relação que ocorre o desenrolar da história aonde outros personagens vão surgindo, tais como a sensual Lucila Napolitano, em que Moreira é contratado para "transformar" a sua tese de doutorado num livro; o delegado Lopes Cliff, um sujeito esquisito na aparência, mas infalível na resolução de crimes e o inescrupuloso e cafajeste analista psiquiátrico, Dr. Paul Mahda.

Pavão Lobo sempre contrata o Moreira para que ele escreva livros para sujeitos que possuem desejo de lançar uma obra, mas não tem competência para escrever sequer uma linha. Aproveitando-se disso, Pavão Lobo explora as suas vítimas, desejosas para serem reconhecidas como escritoras e, quem sabe, até ficarem famosas com uma vendagem espetacular dos seus livros. É nesse tipo de negócio que a Editora Pavão Lobo trabalha e tem o Moreira como funcionário número um.

Num desses trabalhos, Moreira conhece Lucila, por quem se apaixona loucamente e também o safado Dr. Paul Mahda, um psiquiatra considerado "das estrelas", por somente atender atrizes, top models, políticos entre outras celebridades. O Dr. Paul Mahda resolve escrever um livro, mas culpa a falta de tempo, que na verdade, conforme as conversas que Moreira tem com o psiquiatra para a produção do livro, percebe que é mais falta de competência dele do que a falta de tempo. A partir desse trabalho é que a vida de Moreira se torna um inferno, envolto numa complexa trama, surpreendente e sórdida, cujo desfecho seria inevitavelmente pontuado com violência e sangue (p. 16).

O livro é bastante atual nessa questão do mercado editorial em que muitos querem ser escritores, mas poucos têm condição de escrever sequer um parágrafo e daí recorrem ao artifício de escritores fantasmas contratado por editoras que somente querem ficar com o dinheiro das vítimas, não primando pela qualidade do livro.

Saliento também a escrita feita de forma satírica, cômica pelo autor, que deixa a história muito mais gostosa de ser lida e, além disso, ressalto o lugar escolhido para o desenrolar dos fatos, que é a cidade de São Paulo. Esse aspecto aproxima ainda mais o leitor, principalmente aquele que mora em São Paulo ou conhece a cidade. Isso leva o leitor a reconhecer os lugares e, inevitavelmente, a ser inserido dentro da história. Ele passa a sentir, a enxergar a sua presença dentro da trama. Bacana!

Acredito que a forma satírica que o escritor conduziu a história, no fundo, acaba tirando um sarro de uma situação muito preocupante nos dias de hoje, que é falta de ética das pessoas.  Creio que o leitor mais atento, rirá com vários trechos da história e também refletirá sobre o universo que o escritor critica no livro.

A leitura é bastante tranquila e rápida e a trama é entendida sem segredos. Isso se deve ao fato da experiência do escritor na formação de leitores, na escrita e na publicação de livros voltados para o público infanto-juvenil. Característica, essa, que implicou também no não aprofundamento dos personagens, tal qual se costuma ocorrer em romances direcionados ao público adulto, mas isso não tira a qualidade, de modo algum, da deliciosa história presente em "Farsantes & Fantasmas".

sábado, 15 de dezembro de 2012

Dois Irmãos, de Milton Hatoum

Todo ano quando a Câmara Brasileira do Livro divulga a lista dos ganhadores do Prêmio Jabuti, uma espécie de "Oscar" da literatura brasileira, com um lápis na mão e um caderninho ao lado, anoto, nas muitas categorias que me interessam, como o nome das obras, dos autores e das editoras ganhadoras.

Está claro que há muito tempo o Jabuti deixou de ser uma referência das obras que possuem qualidade ou não dentro da literatura brasileira, mas acredito que ele nos oferece um ponto de partida para termos contato com obras que possuem, no mínimo, uma boa qualidade literária.

Uma dessas obras que eu anotei lá atrás e somente agora tive tempo de lê-la, foi a obra Dois Irmãos (Ed. Companhia das Letras), do escritor amazonense Milton Hatoum, premiada com o Prêmio Jabuti de melhor romance em 2001.

Fonte: http://gorpacult.blogspot.com.br/2012/09/dois-irmaos-milton-hatoum.html

O livro narra a história da família de Zana e Halim, filhos de imigrantes libaneses que foram, no início do século XX, morar em Manaus. Mas o que o livro foca não é somente a história do casal, mas sim a dos seus dois filhos gêmeos: Omar e Yaqub, com personalidades completamente diferentes e é isso que o autor vai explorar muito bem ao longo do livro. Por questão de segundos Yaqub nasceu primeiro do que Omar, ficando o último, com o título de Caçula e foi justamente esse o seu apelido.

A história é contada em primeira pessoa por um personagem que somente terá o seu nome revelado nos últimos capítulos. Ele, sendo filho de Domingas - uma índia que trabalhava como empregada na casa - acompanhou todos os acontecimentos que ocorreram na família, principalmente o conflito entre Yaqub, o filho estudioso e responsável e Omar, o mulherengo, aproveitador, bagunceiro e que gostava de festas e atividades ilícitas. Esse conflito, muito bem retratado pelo autor ao longo de doze capítulos, que leva a decadência da família.

O autor não conta a história de forma linear, ele faz o uso de flashback, um diálogo com o presente e o passado. A linguagem usada é simples e acessível. Frases curtas imprimem no texto um ritmo intenso tornando a história dinâmica. Isso faz com que cada cena ocorra rapidamente sendo trocada logo em seguida por outra. Esse artifício deixa o leitor preso na narrativa na ansiedade dele verificar o que ocorrerá em seguida com um personagem ou como será o fim de uma situação.

O que me chamou a atenção foi o poder de descrição do autor. Há uma riqueza de detalhes em cada cena, que leva o leitor, enquanto lê, a criar em sua mente a imagem dos ambientes e situações tão bem descritas pelo autor. Pesquisando na internet,  logo essas imagens sairão das cabeças dos leitores e estamparão a tela televisão, pois a Rede Globo pretende transformar o livro de Hatoum numa minissérie, que contará com nada mais nada menos, com o ator Wagner Moura, interpretando um dos gêmeos.

Dois Irmãos é um drama que me emocionou do começo ao fim. É interessante lermos a história de uma família, desde a sua formação até a sua decadência. Acabamos por nos tornamos íntimos dos personagens. Analisamos os conflitos, refletimos sobre as escolhas de cada membro, comemoramos os sucessos obtidos e choramos as derrotas conquistadas. Somente um livro bem escrito como esse tem guarda o poder de nos tornarmos membros de uma família que não é a nossa.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O Desejo de Lilith, Ademir Pascale

Fonte: http://www.cranik.com

Adquirimos uma obra literária por diversos estímulos, tais como: propaganda veiculada em jornais, revistas, sites, televisão e blogs literários, exposição na vitrine de uma livraria ou a leitura de uma resenha. Essa última, com o aumento de espaços para debates sobre livros na internet, tem gerado a meu ver bastante controvérsia.

Um leitor que se propõe a fazer uma resenha acaba sempre - conscientemente ou não - por julgar a obra mediante a utilização de critérios, alguns conhecidos e outros totalmente subjetivos. Isso gera resenhas que ora enaltecem ora rebaixam um mesmo livro. Portanto, tomar a decisão de comprar ou não um livro tão somente com a leitura de uma resenha pode ser perigoso. O que se configura num argumento fraco, numa prosa simplória para um leitor, pode ser maravilhoso e bem construído para outro. Daí a necessidade de também, antes de tirarmos o cartão para comprarmos uma obra, levantarmos mais informações sobre ele, como, por exemplo, o gênero literário do livro, a sua sinopse e, porque não, as informações da pessoa que o escreveu.

E foi justamente com a leitura de várias resenhas sobre o livro O Desejo de Lilith (Editora Draco), do escritor Ademir Pascale, que eu pude perceber o quanto elas são desencontradas. Claro, cada resenhista é um ser humano, e como tal, é um sujeito complexo, dotado de emoções, sentimentos, visões de mundo e gostos diferenciados. Assim, para alguns, o livro é bom. Já para outros, cabe somente uma crítica ácida, espantando um leitor que poderia se interessar pela obra, mas costuma pautar o que lerá apenas pela leitura de uma simples resenha. Independente de todas as resenhas e críticas que eu li sobre o livro, resolvi comprá-lo, pois muito antes das resenhas lidas, já havia me interessado pela sinopse. 

A história gira em torno de um detetive de polícia, que após investigar o caso de um macabro suicídio, se envolve numa história que mudará completamente a sua vida. Na medida em que a investigação avança, o protagonista faz descobertas incríveis acerca do livro mais lido do mundo: a Bíblia Sagrada. Um total de 63 trechos distribuídos pelo livro sagrado revela a existência de um poderoso demônio.

O livro foi escrito em primeira pessoa e em formato de diário. É preciso ter paciência nos primeiros capítulos, pois não há muita ação, porém, esses primeiros capítulos são essenciais para o entendimento de toda a trama. A partir do capítulo 6, o livro começa a ficar mais interessante, com cenas de ação e trechos que chega até dar um medo, como por exemplo, um encontro "cara a cara" com um demônio.

Há um suspense, uma tensão conduzida tão bem pelo escritor até a revelação do tão aguardado desejo de Lilith. Após esse capítulo que contém a explicação do desejo explicado detalhadamente, senti que os capítulos seguintes não conseguiram segurar muito a trama. Em alguns pontos a história ficou meio sem rumo. Já em alguns, o escritor habilmente conseguiu se utilizar da revelação do desejo de Lilith para conectar a fatos ocorridos na Terra e quem passou por eles na década de 1990 irá encontrar uma grande semelhança.

O final é surpreendente e emocionante. O poder de descrição do autor nos faz imaginar perfeitamente a cena. Emociono-me ao sentir e observar esse poder da Literatura, de nos transportar para lugares e cenas que nós nunca vimos e despertar em nós variados sentimentos.

Como pontos negativos, levanto algumas incongruências que numa próxima edição poderiam ser corrigidas. Vale ressaltar que esses deslizes de modo algum atrapalham o bom andamento da história. Consertados, darão, com certeza, mais estreitamento com a realidade:

- O personagem principal ocupa um cargo de detetive e tempos depois é demitido da polícia. Esse cargo no Brasil, na década de 1970, época em que passa a história não existe (o cargo similar é de investigador) e, além disso, em cargos policiais o regime é estatutário e não CLT, ou seja, o funcionário público não é, de forma alguma, demitido. Pode-se haver uma sindicância em alguns casos, que demora anos, até o funcionário ser retirado de uma empresa pública;

- O início da trama se passa em Hortolândia na década de 60 e 70, mas o município somente surgiu em maio de 1991, quando se emancipou de Sumaré;

- Num trecho o protagonista entra facilmente no apartamento de uma pessoa que havia morrido. O local está interditado para perícia, mas mesmo assim o personagem entra sem nenhum problema. Quando verifica que há algumas pessoas se aproximando do apartamento, ele se joga de alguns andares. Cai, não sente muita dor e sai andando um pouco tranquilo pelas ruas de um bairro de São Paulo. Acho que esse trecho poderia sofrer modificações para deixar a cena mais próxima da realidade;

- O vocábulo que se refere ao planeta Terra foi grafado diversas vezes de maneira errônea. Quando o autor se referia ao nosso planeta, escrevia a palavra "terra". Nos últimos capítulos, houve a grafia correta "Terra".

Portanto, gostei muito da história, principalmente nos capítulos em que há a citação de trechos da Bíblia para embasar personagens e encaminhar a trama. Esse aspecto demonstra que o autor é bastante conhecedor dos segredos que há por detrás desse livro tão antigo.

Ah, destaco também o bom e interessante posfácio escrito por Roberto de Sousa Causo, profícuo autor de ficção científica. No texto, o autor comenta as opções feitas por Ademir Pascale para o seu livro em questão.

O livro é o romance de estreia de Ademir Pascale, escritor conhecido por ter organizado muitas antologias e o fanzine TerrorZine. Tempos depois ele também lançou outro romance intitulado Encruzilhada, publicado pela Editora Literata. Não há dúvida que eu estou ansioso para comprá-lo e lê-lo. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Fantástica Fábrica de Chocolate, Roald Dahl

Quando falamos em A Fantástica Fábrica de Chocolate, logo vem à mente, para os mais velhos, o filme homônimo produzido em 1971 e que tinha o ator Gene Wilder como protagonista. Ele atuou como Willy Wonka, o dono da "fantástica fábrica". Em 2005 houve uma refilmagem dirigida por Tim Burton. Dessa vez, o ator Johnny Depp ficou com o papel principal, ou seja, o de atuar como o excêntrico empresário Willy Wonka.

Muitas pessoas não sabem, mas por detrás dessas produções cinematográficas há uma obra intitulada A Fantástica Fábrica de Chocolate que foi lançada na década de 1960, pelo escritor britânico, filho de noruegueses, Roald Dahl (1916-1990).


Roald Dahl fez sucesso com livros direcionados ao público infantil. Além da A Fantástica Fábrica de Chocolate, ele publicou em 1988 outro grande sucesso, Matilda, que em 1996 se tornou filme tendo como diretor Danny DeVito.

Confesso que eu conhecia somente o filme A Fantástica Fábrica de Chocolate, reprisado várias e várias vezes na televisão. Somente fui tomar conhecimento que o filme era baseado num livro, muito tempo depois, ao me deparar num sebo com um exemplar do livro.

A edição que eu li foi publicada pela Editora Martins Fontes, que nos brinda com um livro que contém ilustrações engraçadíssimas de Cláudia Scatamacchia. O livro é delicioso, não só por contar uma história que envolve o universo de doces e chocolates, mas pela maneira humorística, leve e agradável que Dahl conta a história de um excêntrico industrial que deseja abrir a sua mega indústria para visitação de cinco crianças.

Quem, quando era criança, nunca teve o interesse de descobrir como funciona uma fábrica e os segredos que elas escondem na fabricação de doces e chocolates? Pois bem, o livro nos coloca dentro da fábrica de chocolates Wonka, mas ela não é uma fábrica qualquer, ela é uma fantástica fábrica de chocolates.

Willy Wonka é um empresário do ramo de doces, mais especificamente de chocolates, que depois de ter fechado a sua fábrica e demitido todos os funcionários por suspeita de espionagem industrial, resolve reabri-la para visitação de cinco crianças, acompanhadas cada uma por até dois adultos. Mas como que ele selecionaria as crianças espalhadas pelo mundo todo? Por que Wonka deseja abrir a fábrica para visitação? Se a indústria está funcionando, quem trabalha nela se não há sinal algum de operário? Essas questões são respondidas no desenrolar da história.

Paralelamente a isso, há a história de um garoto muito pobre, Charlie Bucket, que capítulos antes é apresentado e capítulos depois tem a sua história entrelaçada incrivelmente com a de Willy Wonka.

O humor que há no texto é resultado em grande parte da excentricidade do personagem principal, Willy Wonka. Ele é um empresário com ideias mirabolantes, como chocolates que podem ser transportados pela televisão e chicletes que não perdem o gosto, por exemplo. Durante a visita a fábrica, temos contato com as suas invenções e os seus projetos malucos para doces e chocolates. Também conhecemos um pouco do seu temperamento, que parece ser bastante explosivo, mas convenhamos, quem aguentaria um grupo de crianças por um dia inteiro?

O desfecho da história nos leva a refletir que, de vez em quando, a obediência às orientações e regras, a "segurarmos" a nossa curiosidade e ouvirmos mais do que falamos, podem trazer bons acontecimentos para a nossa vida, a tal ponto que ela pode mudar drasticamente.

A leitura do livro é muito agradável e de fácil compreensão. É inevitável dar boas risadas com vários trechos, bem como com as ilustrações. Também o que é inevitável e o desejo que surge em nós, da mesma forma quando assistimos o filme, de degustar um bom chocolate.

Não conheço bem o estilo da escrita de Roald Dahl, pois para isso seria preciso eu ter contato com mais alguns dos seus livros, mas a obra que eu acabei de ler dá indícios de que o autor gosta de imprimir na sua narrativa uma característica mais cômica. Se tivermos como referência o filme Matilda, baseado no seu livro de mesmo nome acredito que o estilo de escrita de Dahl provoca mesmo nos leitores algumas boas risadas. Logo, logo terei mais certeza disso, porque no mesmo dia que eu adquiri o livro A Fantástica Fábrica de Chocolate, eu comprei o livro Matilda. Agora resta ler e observar se o escritor repete nele, que foi publicado bem mais tarde do que a fantástica fábrica, a sua característica humorística.

Ah! Verificando o catálogo da Editora Martins Fontes, descobri também que há uma continuação da A Fantástica Fábrica de Chocolate. Trata-se do livro Charlie e o grande elevador de vidro. Claro que eu já comprei e fico na torcida para que o livro chegue logo. Quero verificar o que aconteceu com o menino Charlie e o senhor Willy Wonka. Sem dúvida, novas emoções me aguardam.

Ah! Olha que coincidência! Hoje Roald Dahl faria 96 anos. Portanto, presto com essa minha humilde resenha uma homenagem a esse maravilhoso escritor, que encantou e continua encantando milhares de leitores por todo o mundo.

Se você quiser conhecer todos os títulos desse grande autor disponíveis no catálogo da Editora Martins Fontes, clique aqui.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Resenha: Derrotando um inimigo chamado MEDIOCRIDADE, John Mason

Já escutei várias críticas direcionadas para leitores de livros de auto-ajuda. Não me considero um leitor assíduo desse gênero, mas gosto de vez em quando ler alguns livros que me deem dicas para levar uma vida melhor, a obter maiores sucessos na carreira pessoal e profissional, a lidar com pessoas difíceis entre outras temáticas abordadas por esse tipo de literatura. Acredito que enquanto alguns perdem tempo criticando e tendo os mesmos problemas pessoais, profissionais, financeiros, afetivos, etc., eu ganho tempo aprendendo como lidar com eles por meio da leitura de livros de auto-ajuda.

Verdadeiramente não vejo motivo para tantas críticas que eu escuto por aí. O engraçado é que toda a vez que eu peço então para o sujeito me explicar as razões da crítica, elas acabam não vindo e eu continuo sem entendê-las.

Os autores desses livros, de forma geral, possuem um grande experiência de vida e tem a mais clara intenção de transmitir para os leitores algumas formas e dicas de como sermos bem-sucedidos em todas as áreas de nossas vidas.

No limite, para mim todos os livros são de auto-ajuda, pois em todos eu consigo retirar deles um aprendizado, todos têm algo a ensinar e uma experiência a ser transmitida, quer ela seja de dor, de alegria, de medo, de pânico, de satisfação, etc. Claro que isso está implícito nos textos, bem diferente dos livros "puro sangue" de auto-ajuda, que descobrirmos ter essa característica logo no título, na capa ou nas primeiras páginas e cujo objetivo principal é explicitamente indicar uma forma de termos sucesso em tudo o que formos fazer.


Discussões a parte, o livro que eu acabei de ler é um representante do gênero, ou seja, um "puro sangue". Com o título "Derrotando um inimigo chamado MEDIOCRIDADE - 52 mensagens de inspiração para chegar ao sucesso fugindo do lugar comum", Ed. Thomas Nelson Brasil que faz parte da Ediouro, o escritor - muito conhecido nos Estados Unidos e que já vendeu mais de 1,3 milhão de livros traduzidos em 25 línguas - John Mason, traz como informa o subtítulo do seu livro, um total de 52 mensagens cada uma ocupando no máximo duas páginas. Portanto, o resultado é termos um livro fininho, mas com um poder muito grande de nos impactar.

Como bem afirmou o autor na Introdução do livro, o objetivo da obra é justamente nos desafiar "como nunca o foi anteriormente" e entre uma e outra mensagem, sem dúvida, essa meta é alcançada. O mérito do livro está justamente em proporcionar em nós um momento de reflexão sobre os nossos atos, sobre as nossas escolhas e de forma geral, de como estamos conduzindo a nossa vida.

Ao longo da obra, o autor além de trazer os seus pensamentos sobre os mais variados assuntos como amor, sucesso, amizade, honestidade, entre outros, há a presença do pensamento de outras pessoas muito importantes, como Goethe, George Bernard Shaw, Helen Keller, Francis Bacon, São Tomás de Aquino, Eleonor Roosevelt, Franklin Roosevelt, Cervantes, Oscar Wilde, Martin Luther King Jr., Winston Churchill, Ralph Waldo Emerson, Thomas Carlyle e Montesquieu tornando a obra ainda mais interessante.