quinta-feira, 24 de julho de 2014

Filmes baseados em livros

Ultimamente as produtoras de filmes, principalmente as norte-americanas, têm desenvolvidos filmes a partir de livros publicados que  já alcançaram um sucesso considerável no mercado editorial.Ponto cine e livros

A ideia é que se o livro fez sucesso nas vendas, tornando-se muitas vezes um best-seller, essa expectativa também é transferida para um filme, que pode confirmar no cinema o sucesso obtido nas livrarias.

Outro ponto também é a economia de tempo que as produtoras têm ao fazer um filme baseado num livro, haja vista que a história já está pronta para ser roteirizada e filmada e não precisa, portanto, ser criada “do zero”.

Daí o lançamento cada vez maior de filmes baseados em livros e um nicho pouco explorado pelas editoras e pelos livreiros quando esses filmes chegam para ser exibidos no circuito. Muitos dos espectadores dos filmes não têm conhecimento que ele é baseado numa obra literária. Outros sabem disso, mas não tem interesse em ler a obra que originou o longa metragem, talvez por falta de incentivo/interesse para a compra do livro.

Há uma forma de valorizar e promover a leitura, bastando possibilitar que os espectadores dos filmes pudessem, ao saírem dos cinemas, comprarem os respectivos livros que deram origem aos filmes. Daí a necessidade dos cinemas promoverem campanhas com as editoras dos livros e/ou com as livrarias dos shoppings onde os cinemas estão instalados.

Inúmeras vezes saí do cinema com vontade de ler o livro e cacei uma livraria no shopping até encontrar um exemplar. Em todas às vezes, mesmo o filme estando em cartaz, os livreiros e as editoras não fizeram um comercial sobre o livro, expondo na vitrine ou não concedendo um desconto para quem o assistiu.

Assim, sugiro que as editoras e as livrarias, na próxima vez que um filme baseado numa obra estiver em cartaz, que o livro seja oferecido dentro do cinema a um preço mais camarada para aquele que o assistirá ou então que o espectador apresente o tíquete confirmando que ele assistiu ao filme e ganhe um desconto na compra da obra.

Iniciativas como as sugeridas acima poderiam alavancar as vendas das livrarias, dos cinemas e das editoras, mas mais do que isso, poderiam aumentar a pífia quantidade de livros que os brasileiros leem.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Semana do Livro Nacional em São Paulo

Começa neste sábado (19) a 2ª Semana do Livro Nacional em várias cidades do Brasil. Em busca de mais reconhecimento para a literatura nacional, autores, editoras, blogueiros e livrarias se juntarão montando uma programação que se estende até o dia 27 de julho.

Nesta segunda edição mais de 20 cidades vão participar do evento, juntando grandes nomes da literatura nacional, assim como escritores iniciantes ou independentes.

Em São Paulo - Capital o evento terá início às 14h na loja Lorena da Livraria da Vila, que fica localizada na Alameda Lorena, 1731.

Segue abaixo a programação. Todo o evento ocorrerá no auditório da livraria.

sábado, 19 de julho de 2014
BATE PAPO
SEMANA DO LIVRO NACIONAL
O projeto propõe difundir a literatura entre o público leitor brasileiro, promovendo, durante uma semana, somente autores e obras nacionais em todos os estados e cidades brasileiras. Para isso, conta com a participação de escritores, blogueiros, editores, livrarias e instituições públicas e privadas.

14h - Abertura 

14h20 - Bate-Papo Sobrenatural 
Com Mari Scotti e Bruna Camporezi
Apresentação das obras e como o Mercado nacional recebe livros sobrenaturais de autores brasileiros. Suas sensações e esperanças futuras e o que estão fazendo para mudar essa condição.

15h15 - Palestra com Natália 
Apresentação sobre a Amazon

16h00 - Bate-Papo Romance
Com Felipe Colbert
Apresentação das obras e como o Mercado nacional recebe romances de autores brasileiros. Suas sensações e esperanças futuras e o que estão fazendo para mudar essa condição.
16h45 - Bate-Papo Blogueiros 
Com Mari Scotti e Bruna Camporezi
Qual a visão do blogueiro sobre a literatura nacional e o que espera ver no futuro. Quais temas faltam na literatura nacional . Qual o objetivo do blog quando foi criado e quais espectativas possuem para a Bienal de SP. Plateia fará perguntas.

17h30 - Intervalo 

17h45 - Palestra Sobre Processo de Criação 
Com Felipe Colbert

18h45 - Sorteio / Encerramento 
Com Mari Scotti e Bruna Camporezi

domingo, 22 de junho de 2014

As aparências enganam

O amparense Marçal Aquino é um dos grandes escritores brasileiros contemporâneos. Domina a narrativa como poucos e no brinda com bons textos, como "O Invasor", uma tensa novela ambientada em São Paulo em que tudo o que passamos a acreditar ao longo dela é desfeita, de forma genial, ao final dela.

O livro narra uma trama vivida por três personagens: Estevão, Alaor e Ivan, que são sócios de uma construtora sediada na cidade de São Paulo. Devido à negócios escusos propostos por Alaor e Ivan, mas que renderão altos dividendos para a construtora, Estevão se opõe e quer impedir essa falcatrua seja concretizada, é quando Alaor e Ivan recorrerem a um serviço de matador de aluguel para dar cabo a vida de Estevão, mas o que menos eles esperavam, é que o assassino começa a fazer parte da vida deles e da empresa, até um desfecho inesperado.


Aquino construiu em "O Invasor" uma bela narrativa policial, aonde os fatos acontecem de forma linear facilitando a compreensão do leitor. É um texto com suspense, tensão e, principalmente com pitadas de humor, o que nos leva a rir em alguns trechos e isso alivia um pouco o peso de uma trama policial que contém mortos, jogos de interesse, corrupção e outros ingredientes mais pesados. O mais interessante da obra é que tudo o que começamos a pensar sobre os personagens, são desconstruídos depois, ratificando a característica de uma obra policial em que "as aparências enganam".

Vale dizer que o processo da escrita desta obra foi sui generis, haja vista que um certo dia, o escritor recebeu em sua casa um amigo, o cineasta Beto Brant, que perguntou o que Marçal estava escrevendo. Aquino entregou alguns originais do livro para Beto dar uma lida e fazer algum comentário. Eram poucas páginas e assim que o cineasta leu, imediatamente quis produzir um filme, para desespero de Aquino, pois a história não havia ainda sido terminada.

Beto Brant então convenceu Aquino de terminar a história enquanto produzia o roteiro para o filme "O Invasor". Portanto, o filme saiu primeiro que o livro. Pouco tempo depois, Marçal Aquino voltou para a história e terminou de produzir o livro, para desgosto dele, pois numa das entrevistas que Aquino já concedeu, ele disse que quando começa escrever uma história, não gosta de saber o final dele. Escreve sem amarras, sem fatos pré-definidos e quando ele foi terminar o livro, devido ao roteiro anteriormente escrito, já sabia como que aquela história terminaria.

Eu me lembrava vagamente do nome de Marçal Aquino por uma história publicada pela Ática na famosa coleção Vaga-Lume. Anos se passaram e não "percebi mais a presença do autor", até que ao assistir numa terça-feira (quando o programa ainda passava às terças-feiras na TV Cultura) uma entrevista dele no programa "Provocações", tão bem conduzido pelo Antônio Abujamra, gostei muito do que eu assisti e passei a ter mais interesse nas obras do autor.

Participei de duas entrevistas, ao vivo, que ele concedeu na Biblioteca de São Paulo. Nesses bate-papos com tom informal realizados aos sábados, pude conhecê-lo melhor. Conhecer a sua trajetória, a sua forma de escrever, os seus projetos, sonhos e desafios. Logo percebi que eu estava conhecendo um dos grandes escritores contemporâneos brasileiros, que tem habilidade em narrar histórias, seja ela na forma de conto, novela ou um denso romance.

Para a (in)felicidade dos leitores de Marçal Aquino, ele agora está trabalhando para a Rede Globo, na escrita de roteiros para minisséries, como "Força Tarefa". Tal atividade, segundo o autor disse numa entrevista, tem tomado muito tempo dele, tirando o tempo disponível para produzir literatura, que é uma grande pena.

sábado, 7 de junho de 2014

Um livro de contos dramáticos

É engraçado ou estranho quando conhecemos um autor não pela obra dele mais vendida ou aclamada pela crítica e sim por um livro que não foi tão bem discutido no meio literário. 

Geralmente partimos do livro mais conhecido e, gostando do estilo do autor e da sua forma de narrar, somos seduzidos por ele e partimos, apaixonados, para outras obras. Foi assim que ocorreu comigo em relação ao escritor e médico Drauzio Varella.

Lembro-me quando ele lançou o livro Estação Carandiru pela editora Companhia das Letras. A obra ficou por várias semanas nas listas dos mais vendidos e ele passou a conceder várias entrevistas na imprensa. Drauzio, então, passava a ser mais conhecido pelo que fazia com as letras com o que fazia com os seus pacientes.

Mas eu não conheci o Dr. Drauzio pelo seu livro mais discutido e sim por um título lançado anos depois do aclamado Estação Carandiru. O livro foi o Por um fio, cuja leitura promove uma reflexão sobre como que os pacientes do Dr. Drauzio lidaram com a notícia que possuíam poucos meses de vida devido a uma doença grave como o câncer ou a AIDS.

O livro de 224 páginas, também publicado pela Companhia das Letras, traz ao longo dos capítulos, histórias de como se comportaram os pacientes quando receberam o diagnóstico de uma doença grave e o veredito de que teriam poucos meses de vida. Entremeados nessas histórias, temos flashes autobiográficos do autor, que conta detalhes da sua infância num bairro de São Paulo, a sua relação com o irmão, o curso de medicina entre outros fatos bem interessantes.


Cada capítulo é um conto, uma história diferente de um paciente, que pode ter morrido pela doença diagnosticada ou que tenha alcançado a cura devido algum tratamento administrado pelo médico (lembre-se que o Dr. Drauzio Varella é ateu e não atribui a melhora de nenhum paciente a uma cura divina), mas o que está presente em todas as histórias são a tensão, o drama e até certo ponto a melancolia.

Não há como passar pelos contos sem sentir tristeza e pesar pelo que os pacientes passaram. A forma simples e envolvente da escrita do médico nos coloca, em cada história, dentro da vida do paciente/personagem. Parece que compartilhamos da dor dele como se fosse alguém próximo de nós.

Por um fio é uma bela obra que nos possibilita analisarmos o quão controverso é o ser-humano quando este recebe a notícia que a sua morte está próxima. A leitura do livro também é uma oportunidade de valorizarmos a nossa vida e desfrutá-la a cada instante, pois se formos diagnosticados por uma grave doença e termos os nossos dias abreviados por causa dela, partiremos satisfeitos e seremos, para os que ficaram, um exemplo de pessoa que soube aproveitar bem a vida enquanto teve saúde.

domingo, 6 de abril de 2014

Diálogos deliciosos

O livro Amor Esquartejado, escrito pelo paulista Roger Franchini e publicado pela Editora Planeta, faz parte de dois outros livros em que o autor se utilizou de grandes crimes cometidos na "vida real" como pano de fundo para as suas histórias de ficção policial.



Foi assim com o livro Toupeira - a história do assalto ao Banco Central e Richthofen - o assassinato dos pais de Suzane, este último já lido por mim e com uma resenha aqui neste blog.

O livro Amor Esquartejado tem como pano de fundo a morte do empresário japonês Marcos Matsunaga ocorrida em maio de 2012 em São Paulo. O crime chocou o país, na época, não só pela forma em que morreu o empresário, todo retalhado, mas também pela história do casal, haja vista que a esposa era uma ex-garota de programa e pouco se importou pela vida de luxo em que vivia para se tornar uma criminosa e agora presidiária.

É nessa história horrenda que Franchini desenvolveu o seu livro, mas o leitor não deve esperar uma história cujo foco seja o casal, ou seja, um enredo que conte a história do homem rico, diretor de uma das maiores empresas do Brasil e de uma garota de programa que deixa a vida de prostituta para se tornar uma distinta dona de casa que mora num bairro nobre de São Paulo. Franchini, pelo contrário, aproveita a história para expor mais um pouco os bastidores da polícia civil do Estado de São Paulo, algo que ele começou no seu primeiro livro "Ponto Quarenta" (esgotado) e fez no livro Richthofen.

Por meio de dois personagens policiais, Maurício e Rodrigo, o autor criou uma ficção em que consegue desvelar o que aconteceu dentro dos corredores da polícia judiciária paulista naquela época do sequestro do empresário japonês. A riqueza de detalhes sobre o ofício e o linguajar dos policiais, são fruto do tempo em que o próprio escritor foi investigador de polícia e foram nesses dois aspectos que ele conseguiu prender o leitor numa narrativa menos linear do que ocorreu em Richthofen.

Chamo a atenção aos diálogos deliciosos que permeiam toda a trama. A forma de falar dos policiais é algo que beira o humor. Recheados de palavrões e gírias deixam os diálogos bem interessantes e deixam a narrativa mais leve, mais gostosa de acompanhar e é isso que faz a diferença nos livros policiais escritos por Franchini.

Acredito que o autor poderia ter explorado mais a vida do casal até culminar na morte horrorosa do executivo japonês, como fez no livro Richthofen, onde o escritor se preocupou mais em desvelar o cotidiano da família e dos algozes do casal Richthofen, bem como descrever o clima que pairava na família até a morte prematura do pai e da mãe de Suzane, inclusive com detalhes e descrição muito bem escrita, diga-se de passagem, da morte dos dois.

Franchini poderia, portanto, focar mais o cotidiano do casal formado pela ex-garota de programa e pelo executivo japonês. Isso acabou ficando em segundo plano para contar os bastidores da polícia civil, bem como a guerra que há entre ela e a polícia militar, pouco divulgada na imprensa.

Quando comprei o livro, achei que iria encontrar o que eu li no Richthofen, uma história mais linear, com mais detalhes sobre a família, sobre o casal, as desavenças e as brigas até chegar à morte horrenda do executivo. Como leitor inveterado de livros de terror, esperava detalhes do esquartejamento, de maneira igual a que ele narrou quando da morte dos pais da Suzane, no livro anterior, mas mesmo assim, trata-se de uma obra policial bastante gostosa de ler e que, mesmo não focando o crime em si, dá uma ideia de como funciona a polícia civil do Estado de São Paulo.

sábado, 15 de março de 2014

77 anos da morte do escritor H. P. Lovecraft

Hoje completa 77 anos da morte do escritor norte-americano Howard Phillips Lovecraft, mais conhecido como H. P. Lovecraft.

H. P. Lovecraft é um dos mais importantes escritores de ficção científica, fantasia e terror do século XIX. A última década de sua vida foi a mais produtiva, quando escreveu clássicos como O chamado de Cthulhu e A sombra vinda do tempo

Lovecraft e seus contemporâneos (O Círculo Lovecraft) compartilhavam ideias, personagens e temas, sendo Lovecraft a principal influência. Ele tirou várias ideias de seus próprios pesadelos, muitas vezes pintando um retrato pessimista do futuro e incorporando realidades alternativas povoadas por entidades monstruosas.

Lovecraft causou profunda influência em escritores posteriores como Stephen King e Clive Barker, bem como na cultura popular, no cinema, na música e na televisão.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Impressionei-me pelas descrições

Assisti ao filme primeiro. Isso ocorreu em 2012, quando o eterno Harry Potter, Daniel Radcliffe, interpretou o jovem advogado Arthur Kipps no longa "A Mulher de Preto", homônimo livro escrito pela britânica Susan Hill.

Na época gostei do longa e me interessei pelo livro. Saí do cinema com o desejo de comprá-lo, mas como a sessão tinha começado muito tarde, a única livraria do shopping já estava fechada. Até hoje não entendo como as editoras deixam de faturar ainda mais, se fizessem uma parceria com os cinemas.

Defendo que filmes baseados em livros deveriam ser vendidos diretamente para o frequentador do cinema, numa espécie de lojinha dentro do cinema, ou por falta de espaço físico, isso poderia ser feito na área da venda de pipocas. A maioria dos filmes acaba sendo a porta de entrada de leitores que passam a se interessar pelo livro em que se baseou o filme e isso impulsiona a venda dos livros. O cinema poderia também fazer uma parceria com a livraria que existe no mesmo shopping em que ele está para que ocorresse a venda, ou a pessoa que assistiu ao filme baseado no livro, poderia conseguir um desconto no preço de capa apresentando o tíquete do cinema. Enfim...

Como eu escrevi no post anterior, a vida de professor impossibilita-nos, na maior parte, de assistirmos os filmes que passam no momento e de ler os livros que foram lançados no momento. Acompanho a maior parte dos lançamentos de filmes e livros, mas comentá-los faço isso muito mais tarde, devido o montante de atividades que eu tenho para dar conta como professor.

Com o livro "A Mulher de Preto", publicado pela editora Record, ocorreu um atraso de dois anos para que eu conseguisse ler a obra. Decidi ler o livro dias atrás, com uma brecha nas minhas atividades docentes. Comprei uma edição digital e passei a lê-lo, algo que me levou apenas alguns dias devido à boa qualidade da narrativa.


A história foi muito bem narrada, com muitos ingredientes que pertencem a bons livros de terror. O que me chamou a atenção foi o poder de descrição da autora. Descrição dos personagens, dos seus sentimentos, das paisagens, dos lugares por onde os personagens passaram e das situações de terror vivenciadas pelo protagonista, o jovem advogado londrino Arthur Kipps.

Kipps mora em Londres e é designado para ir até uma cidade no interior da Grã-Bretanha acompanhar o enterro de uma senhora que morava num local afastado da cidade. Além de acompanhar o enterro, o advogado deveria trabalhar na casa em que ela morava para organizar alguns documentos e remetê-los para o escritório que ficava em Londres, mas a partir do momento em que Kipps chega à cidade e coloca os pés na velha e sinistra casa localizada próxima a um brejo assustador, a vida dele passa por algo assustador e que o acompanhará por toda a sua vida.

A história foi estruturada cuidadosamente pela escritora. Todas as questões que envolvem os personagens, a casa e a cidade que surgem ao longo da história deixam o leitor preso ao livro. Uma por uma das questões e dos mistérios são respondidos, sempre de forma tensa, ao longo do livro.

E a tensão é algo que perpassa toda a história, da mesma forma que ocorreu no filme. O livro é sombrio, tenso e assustador. O resultado não poderia ser outro: despertar no leitor o medo. É tão satisfatório e agradável quando lemos algo tão bem escrito que desperta em nós a ansiedade, a tensão e o medo, sentimentos que os leitores de terror apreciam e buscam nas obras.

Acabei de crer que os bons escritores de terror pesam as mãos nas descrições, tudo para envolver o leitor e colocá-lo sempre numa atmosfera de apreensão, de ansiedade, de mistério e de suspense, antes de apresentar situações que o colocarão num estado de medo e que o desestabilizará por alguns segundos, horas e até dias! Isso seguramente "A Mulher de Preto" consegue provocar, como os bons livros de terror que eu li recentemente, como "O Cemitério", de Stephen King, "A Profecia", de David Seltzer e o "Horror em Amityville", de Jay Anson.

terça-feira, 4 de março de 2014

Xingu, Orlando Villas-Bôas e a escola

Pode ser inacreditável para alguns, mas somente consegui assistir ao filme "Xingu", que narra à saga dos irmãos Villas-Bôas pelo interior do Brasil, há alguns dias atrás e olha que o filme foi lançado em 2002 e ainda foi transformado em série pela Rede Globo, que o exibiu no ano passado, mas esses atrasos são comuns para quem trabalha como professor.

Devido à quantidade de aulas e o montante de tarefas que temos que desempenhar, tudo isso acaba nos privando de acompanhar "em tempo real" os lançamentos nos cinemas, bem como os livros, que até participamos das sessões de lançamento, mas que vamos ler só depois de muitos meses quando ninguém mais fala sobre ele.

Enfim, nos últimos dias, consegui assistir ao filme "Xingu" e me emocionei pela história de coragem dos três irmãos que deixaram uma vida cômoda em São Paulo e se candidataram para explorar o misterioso interior brasileiro.

Mas, o que mais me emocionou, de fato, foi a recordação que eu tive enquanto assistia a saga empreendida pelos Villas-Bôas na expedição que ficou conhecida como "Marcha para o Oeste".

Eu tinha 11 anos em 1994 e estava na antiga 5ª série (atual 6º ano). Estudava na Fundação Bradesco, em Osasco. Numa tarde avisarem que teríamos a visita de homem que tinha muitas histórias, pois ele havia passado muitos anos vivendo com os indígenas. Era um tal de Orlando Villas-Bôas. Lembro-me como todos nós ficamos ansiosos em conhecê-lo por causa da descrição feita pela professora e também pela possibilidade de "matarmos" a aula assistindo a uma palestra.

Fomos conduzidos, naquela tarde ensolarada, para o último andar do prédio. Lá ficava a quadra com as suas grossas telhas fabricadas pela Eternit e que imprimiam ao ambiente um calor ainda mais insuportável. Acho que o Orlando Villas-Bôas acostumado com o calor equatorial, nem se importou com o ambiente abafado daquela quadra.

Sentamos no chão. O piso era formado com grandes tiras de taco de uma madeira que brilhava. Na frente do grupo de aproximadamente 45 crianças, havia um simples banquinho de madeira. Em volta dele, artigos indígenas estavam espalhados pelo chão. 

Passaram-se poucos minutos e por uma das duas entradas da quadra, numa pequena porta do nosso lado esquerdo, eis que entrou um homem com uma estatura média, um pouco gordinho, com um cabelo grande e uma barba espessa. Usava óculos e estava acompanhado pela Direção e pela Coordenação do colégio. Todos nós viramos para ver quem era o homem que tinha vivido com os índios e deles, apreendido muitas histórias.

Orlando Villas-Bôas sentou-se no banquinho. Apresentou-se e começou a contar sobre a sua história de vida, principalmente o tempo em que passou com os indígenas. Apresentou todos os objetos que trouxera. Para cada um contava uma história, de como tinha ganhado, de como funcionava, de como era fabricado, de como era usado... 

As crianças, acostumadas a fazer bagunça e não conseguirem parar de conversar dentro da sala de aula e nos outros ambientes da escola ficaram quietas e hipnotizadas pela fala alegre e calma, bem como pelo aspecto humilde e simples de Orlando Villas-Bôas. 

Depois da apresentação dele, foi aberta uma sessão de perguntas. Levantávamos as mãos para perguntar sobre os indígenas: como viviam, comiam, brincavam, caçavam, plantavam, tomavam banho, dormiam... Eram as mais variadas perguntas de crianças urbanas, crianças que nunca haviam encontrado e conversado com um indígena de verdade. Só conhecíamos os indígenas pela televisão. 

Villas-Bôas foi respondendo pergunta por pergunta. Sempre de forma alegre, gentil e paciente. Deixou, ao final, nós manejarmos os instrumentos indígenas. Pudemos chacoalhá-los, soprá-los e, claro, brincarmos com eles, enquanto o Villas-Bôas, sempre com um sorriso estampado no rosto, de longe, nos admirava. Talvez pudesse pensar como as crianças indígenas também ficariam entretidas com os objetos daquelas que viviam na cidade, como os vídeo games, telefones, televisões, entre outros.

Foi uma tarde muito diferente. Despedimo-nos e nunca mais a imagem de Villas-Bôas saiu da minha consciência. Sempre que o via na televisão, corria para contar para os meus pais e amigos que um dia tinha conversado com ele e conhecia-o de perto. 

Muitos anos depois é que eu fui entender a contribuição e a importância dele e dos outros seus irmãos para a história indigenista brasileira. Quando criança, sentado ali na frente dele, já sentia que estava diante de alguém importante para o país, mas não tinha ideia de quanto às ações e o pensamento dele eram tão importantes para o Brasil. 

Quando foi noticiada a morte de Orlando Villas-Bôas, em dezembro de 2002, antes que eu saísse correndo como eu fazia quando era menino para dizer que o conhecia, que ele um dia visitou a minha escola, etc., sentei na beirada da cama e fiz uma singela oração para a família dele. Lamentei profundamente a sua morte. Tinha aprendido a admirá-lo e, desde então, passei a acompanhar o seu trabalho. 

Essa admiração nasceu e só foi possível pelo trabalho que a escola fez em apresentá-lo para mim, enquanto criança. Por isso que esse episódio retrata, mesmo que minimamente, o importante papel que a escola desempenha na formação de uma pessoa e quanto é necessário e importante levar até ela pesquisadores, políticos, intelectuais, escritores, artistas plásticos, músicos entre outros, para apresentá-los para os estudantes. 

A escola é uma instituição cuja importância para a sociedade é imensurável e é triste verificarmos o atual estado em que ela, tanto na esfera pública quanto na privada, está, mas isso é um assunto para outro texto.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Casagrande revelado

Se embrenhar nas páginas de Casagrande e Seus Demônios, escrito pelo jornalista Gilvan Ribeiro e publicado pela Globo Livros, é conhecer a trajetória de Walter Casagrande Júnior, jogador que fez história pelo Corinthians.

Casagrande teve o seu problema com o uso de drogas exposto pela mídia poucos anos atrás. O caso veio se tornou público recentemente pela veiculação promovida pela imprensa, mas o uso que o jogador fazia da cocaína era bem mais antigo. 


Vários detalhes sobre a iniciação de Casagrande no mundo das drogas até ele se tornar um viciado, bem como a sua trajetória pessoal e profissional, são contados no livro com uma boa riqueza de detalhes.

Destaco no livro o capítulo sobre a overdose que o ex-jogador teve dentro da sua casa e sobre a atuação dele contra a ditadura militar brasileira, ocasião em que esteve à frente, junto com o ex-jogador Sócrates, na condução da "Democracia Corintiana", uma provocação contra aquele regime de exceção. 

A biografia de Casagrande foi narrada por ele mesmo para o jornalista Gilvan Ribeiro, que manteve a forma como o ex-jogador se expressa, inclusive, com o uso de vários palavrões, mas esse detalhe em nada atrapalha ou rebaixa a qualidade do livro, pelo contrário, imprime fluidez a linguagem e na maior parte do tempo parece que o leitor está conversando com o próprio Casagrande pessoalmente.

Em tempos de censura às biografias, em que os biografados parecem temer que contem aspectos obscuros das suas vidas pelos biógrafos, Casagrande parece não ter se intimidado em contar várias passagens da sua vida, algumas felizes e as outras muito tristes. 

A grande mensagem que o livro deixa é o quanto que o uso de entorpecentes destrói a vida de um ser humano. O prazer momentâneo trazido pela droga também deixa para a vida de quem a usa, a dor, a perda da dignidade, a dilaceração dos relacionamentos entre outros, quando não a morte.

Ainda bem que Casagrande despertou a tempo e não optou em seguir um caminho de destruição e de dor. Reconheceu que estava doente e pediu ajuda. O mais bacana foi que a TV Globo não o demitiu guardando o seu cargo para que o ocupasse quando estivesse melhor. Isso fez muita diferença na vida do ex-jogador, que revelou que encontrou no trabalho na TV Globo, uma forma de se sentir útil e de ser valorizado, afastando o desejo de voltar a utilizar droga.

Apesar da aparente normalidade, o ex-jogador vive hoje numa situação em que precisa controlar a ansiedade e lidar com as frustrações e o nervosismo comuns a vida de todo o mortal. Para quem foi um ex-usuário, qualquer motivo pode ser a desculpa para voltar a usar drogas, mas Casagrande tem essa consciência e continua se submetendo a um tratamento com duas psicólogas, além de trabalhar muito, sorte nossa que podemos acompanhar os seus bons comentários pela TV.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Esperava mais

O jornalista carioca Marcelo Araújo começou a sua carreira literária ao lançar um livro com onze contos, em 2009, intitulado Não Abra - Contos de Terror, publicado pela editora Thesaurus. Pela mesma editora, em 2011, o autor lançou o seu segundo livro, Pedaço Malpassado, que contém dois contos. 

Também pela Thesaurus, no final de 2012, o autor lançou o seu terceiro livro, A Maldição de Fio Vilela. Diferente dos outros dois que reunia contos, nesse o autor se dedicou estritamente a desenvolver uma única história, que se passa na zona rural de um pequeno município carioca e envolve uma família assombrada pela presença de um estranho chamado Fio Vilela.

Fonte: Editora Thesaurus

O argumento do livro é muito interessante, mas o autor não soube explorá-lo com profundidade, deixando para o leitor uma história superficial e de um suspense fraco. Ao ler a história, pude perceber mais o trabalho do escritor contista do que o romancista.

Por ser um contista, Marcelo Araújo imprimiu no seu mais novo texto, as características daquele que escreve conto, como a não preocupação de desenvolver mais os personagens (somente são descritos as características físicas dos personagens), detalhamento do local onde se passa a história (no livro, não temos sequer o nome do município onde se desenrola a história), aprofundamento da trama e mais situações de tensão, perigo e horror.

Assim, considero o livro uma novela, ou seja, um conto com uma extensão maior. Acredito que daria para o autor explorar mais as cenas, colocar mais tensão, mais suspense, mais terror. As cenas que eu esperava que isso acontecesse, os personagens simplesmente passaram por ela sem maiores detalhamentos, sem maiores sobressaltos, deixando a história um quanto frouxa.

O autor privilegiou uma grande quantidade de diálogos, alguns desnecessários, que poderiam dar lugar a construção de um texto mais denso, mais assustador e com muito mais tensão. Se ao invés de alguns diálogos, Araújo se detivesse em elaborar melhor um clima ao detalhar uma cena, um personagem ou um local, por exemplo, a história ganharia mais qualidade.

Adorei o vilão Fio Vilela e creio que faltou, conforme indiquei acima, explorá-lo mais, tal como aconteceu com os outros personagens. As únicas cenas um pouco assustadoras, se deram, de fato, com a aparição de Vilela, mas foram cenas rápidas, superficiais, infelizmente.

O final da história foi bem construído, apesar de várias perguntas não terem sido respondidas, mas acredito que isso foi um artifício do autor em deixar que cada leitor desse um fechamento conforme a sua imaginação.

O encerramento do livro deixa claro que haverá uma continuação. Seria muito bom o escritor continuar a história e aproveitar para aprofundar mais o enredo. Quem sabe esse livro tenha sido somente uma introdução rápida para uma história que se desdobrará e se mostrará mais terrível e sombria ainda. Torço para que isso aconteça.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

15ª Festa do Livro da USP - 2013

Anos atrás a "Festa do Livro" na USP ocorria no interior do prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), mas recentemente ela foi transferida para as dependências da Escola Politécnica, com muito mais espaço para os livreiros fazerem a exposição das suas obras e para os leitores circularem.

A "Festa do Livro" é uma tradição na USP e ocorre todos os anos. É aberta ao público e neste ano vai ocorrer entre os dias 11 e 13 de dezembro.

O desconto mínimo que cada editora deve atribuir aos seus livros é de 50%, por isso que vale muito a pena participar da Festa. Lembrando que as editoras não disponibilizarão somente livros acadêmicos. No ano passado encontrei bons e interessantes títulos de ficção, inclusive de literatura fantástica.



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Você quer mesmo ser jornalista?

Já escutei e li de muitos jornalistas diversas lamentações sobre a profissão, que iam desde as poucas vagas de trabalho, a existência de um exército de reserva causador dos achatamentos salariais, a carga horária desregrada e a estafa produzida por isso até a eliminação - por hora - da exigência do diploma para o exercício da profissão. Tudo isso comprovei no livro Jornalista, da série Profissões, publicado pela Publifolha.


O livro aponta somente percalços e deixa de lado os pontos positivos da profissão, aspectos que existem em todas as profissões ("os dois lados da moeda") e que deveriam ser abordadas pela obra. Nesse sentido, o livro transmite a ideia de que o jornalismo é somente uma área desgastante, mal remunerada e que qualquer um pode ingressar nela, pontos que eu concordo em partes.

Destaco a primeira parte do livro, que oferece um panorama histórico dos meios de comunicação (jornal, rádio, televisão e internet), bem como um breve histórico da profissão de jornalista no Brasil. Em poucas folhas que proporcionam uma leitura fluída devido ao emprego de um vocabulário simples, é possível o leitor conhecer um pouco mais sobre a história da profissão que ele poderá seguir.

Nos capítulos seguintes inicia-se o "terrorismo" contra a profissão, com textos que indicam o quanto é difícil e não valoroso trabalhar como jornalista. A trégua com o terrorismo somente acontece no último capítulo. Três conhecidos e importantes jornalistas contam as suas trajetórias pessoais e profissionais e nos oferecem um depoimento sobre a profissão, com um otimismo não encontrado nas páginas anteriores. O que é unânime nos três depoimentos é que a graduação de jornalismo é importante, mas não fundamental para a formação de um profissional. Outros aspectos têm um peso maior que aliado a um curso universitário farão a diferença para os que querem ser jornalistas. Destaco apenas dois: muita leitura (ela deve ser diversificada; jornais e revistas são essenciais!) e domínio de uma língua estrangeira (nem preciso comentar sobre a Língua Portuguesa, né?).

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A esperança da mudança com a força de Zumbi

Se saíssemos numa rua ou numa avenida qualquer movimentada de um grande centro urbano, como a que existe em várias partes na cidade de São Paulo e perguntássemos para as pessoas o que elas desejariam para 20 de novembro de 2020, com certeza, a maioria não iria associar à data a comemoração do Dia da Consciência Negra. Talvez desejassem ter mais dinheiro, obter uma promoção no trabalho, conquistar o amor não correspondido. Outras mais atentas com os acontecimentos no Brasil perceberiam a data e diriam que aproveitariam o dia de feriado para descansar, relaxar. Por sua vez, outras iriam expor o seu desejo que em 2020 o feriado não fosse mais facultativo, ou seja, tornasse nacional com a adesão, portanto, dos 5.564 municípios brasileiros. Infelizmente, acredito que ninguém teria a consciência de avaliar corretamente a data e desejar, além dos seus anseios individuais, algo coletivo, para o bem comum, como uma sociedade mais justa em oportunidades econômicas, de educação, saúde, saneamento básico, cultura entre outros, para todas as etnias que formam o Brasil, principalmente a negra, cujo país tem uma dívida histórica por ter submetido os negros a uma vergonhosa escravidão que durou penosos 388 anos (abril de 1500 até maio de 1888).
Apesar do fim oficial da escravidão, ainda em pleno século XXI, acompanhamos pela imprensa e pelos dados fornecidos pelos órgãos oficiais do governo como o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que ela ainda existe. Muito menos perceptível que outrora, escamoteada pelo falso discurso e ideia de que a miscigenação brasileira é um sucesso, sendo até referência para o mundo, acredito que os negros ainda não estão plenamente libertos. Há outra escravidão em curso. É a escravidão da falta de oportunidades para os negros, alijados de acessarem o que é de direito de todos os brasileiros, apesar de vivermos num Estado livre e democrático.
A passagem da condição de escravos para libertos, em maio de 1888, não melhorou o quadro socioeconômico em que viviam os negros no Brasil. Mais de 100 anos após a libertação, os negros são o grupo socioeconômico mais pobre do país. Os dados demonstram que a situação de renda, educação, saúde e desemprego da população negra no Brasil é aviltante e revela os preconceitos e a marginalização aos quais ela está submetida, apesar de haver movimentos negros bastante atuantes, que lutam pelo fim dessa situação.
A instituição do Dia da Consciência Negra, criado por lei em janeiro de 2003, mas já adotado pelo movimento negro desde a década de 1970, deveria ser um dia em que todos os brasileiros não só descansassem os seus corpos e mentes da rotina diária, mas sim, um dia de conscientização e reflexão sobre a igualdade racial no Brasil, um país ainda manchado por diferenças e discriminações raciais.
Enquanto anualmente o dia 20 de novembro passar por nossas vidas de forma insignificante, sem merecer uma reflexão e dessa reflexão gerar uma ação para mudar o status quo do negro no Brasil, teremos que conviver, ainda, tristemente com manchetes estampadas nos jornais que denunciam a violência e a falta de oportunidades e perspectivas que o negro sofre no país.
O crescimento econômico brasileiro, que o coloca como a sétima maior economia do mundo, não tem se traduzido em melhorias na educação básica, imprescindível para que o país obtenha no futuro uma geração que tenha as suas mentes descolonizadas do preconceito e da intolerância racial e passem, a enxergar, o valor que a miscigenação tem para toda a sociedade brasileira. O crescimento do país, não somente na área econômica, depende dos esforços, da relação e da união entre negros, mestiços e brancos.
Espero que em 20 de novembro de 2020, nós já possamos ter encontrado o ponto de união entre a mestiçagem e a negritude para a formação de uma força capaz de mudar a história do negro no Brasil. Que a partir dessa data, essa força, imbuída pela força de Zumbi, que lutou até a morte pela cultura e pela liberdade do povo negro, possa, brevemente, conseguir dar de vez a genuína liberdade para o povo negro.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O raio-x de três grandes acidentes aéreos brasileiros

Num trecho do filme "O curioso caso de Benjamin Button", o protagonista ao explicar o porquê da sua amada ter sofrido um acidente que lhe causou algumas fraturas e arranhões, chega à conclusão que devido ao encadeamento de "uma série de eventos e incidentes interligados que não se pode controlar" a moça sofreu o atropelamento. 

A conclusão do personagem acima se aplica a qualquer aspecto da vida, principalmente nos acidentes aéreos, cuja sucessão de vários acontecimentos interligados uns aos outros e que não se pode controlar ou muitas vezes se pode controlar, mas por algum motivo não é controlado, sempre acaba por resultar em grandes tragédias.

Por mais que a tecnologia existente e a capacitação dos profissionais que trabalham com aviação permitem que os erros praticamente não aconteçam, vez ou outra tomamos conhecimento que um erro gera outro, que gera outro, que gera uma sucessão e isso forma uma série de erros que culminam num acidente aéreo.

A série de acontecimentos ingratos que causaram três dos mais trágicos acidentes aéreos brasileiros pode ser observada no livro Perda Total, do escritor carioca Ivan Sant'Anna e publicado pela Editora Objetiva.
O livro disseca o que ocorreu na tragédia dos voos TAM 402 (31/10/1996 - 99 mortos), GOL 1907 (29/09/2006 - 154 mortos) e TAM 3054 (17/07/2007 - 199 mortos).

Ao longo das páginas, o leitor encontra uma miscelânea de termos técnicos que fazem parte da aviação, o que poderia deixar a leitura cansativa, mas isso não ocorre, pois com bastante didatismo, o autor explica cada termo, facilidade adquirida pela experiência dele como piloto amador e por ser um apaixonado pela viação.

Cada tragédia é narrada com uma riqueza de detalhes, resultado de uma pesquisa profunda junto aos inquéritos policiais e da força aérea brasileira, manuais dos aviões fornecidos pelos fabricantes e entrevistas com os familiares das vítimas. Por causa do grande número delas, o autor se restringiu a contar a história de apenas cinco vítimas de cada voo.

O diferencial de Perda Total é não ser uma obra que apenas relata como foram os acidentes e fornece frias estatísticas. O autor vai além disso. Fornece detalhes das tragédias. Conta minuciosamente o que ocorreu antes, durante e depois dos acidentes, com as transcrições das caixas-pretas, detalhes técnicos, relatos de testemunhas e a história de vida de algumas pessoas que estavam em cada voo.

Ivan Sant'Anna teve o cuidado de apurar cada informação e cada detalhe. Soube majestosamente dosar essas informações ao longo da sua escrita para não deixar a leitura tediosa. 

Após ler o livro, o leitor chegará à mesma conclusão do personagem Benjamin Button, de que a vida é cheia de eventos que se sucedem e que não podemos controlar. Esses eventos, que deveriam sem controlados na aviação tamanha a tecnologia empregada nela, bem como o alto nível de capacitação daqueles que trabalham nela, muitas vezes, escapam de qualquer controle e, ao sabor do acaso, causam centenas de mortes, como as que o leitor encontrará em Perda Total.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Novos tempos, velhas práticas

Nos últimos tempos discutiu-se no Brasil o uso das sacolinhas plásticas pelos supermercados. No município de São Paulo elas chegaram até ser proibidas. Na ocasião, fiquei até ansioso pela possibilidade delas darem lugar aos antigos sacos de papel de cor marrom que hoje somente vemos em alguns filmes hollywoodianos antigos, mas a Justiça brasileira, lamentavelmente, barrou a morte das sacolinhas de plástico.

Recentemente circulando por um supermercado, deparei-me com um engradado cuja embalagem dos refrigerantes era de vidro. E não era qualquer refrigerante. Era a líder do mercado mundial, que patrocina inclusive as Copas do Mundo. Verifiquei que em alguns supermercados, inclusive, compra-se refrigerante de 1 litro da mesma marca. O cliente entrega o litro de vidro vazio e com alguns poucos reais retira um litro cheinho.

Lembro-me que lá nos idos da década de 1990, havia um supermercado em Osasco que vendia a granel diversos produtos como milho, açúcar, sal, grão de bico, arroz, feijão, farinha de trigo entre outros. O funcionário do supermercado pesava o quanto o cliente queria e ele armazenava ali mesmo nos frascos que trazia de casa.

Estamos vivendo em novos tempos em que o conceito de sustentabilidade passou a ser mais discutido. A preocupação em tornar o ambiente mais saudável para todos e deixa-lo, inclusive, conservado para as futuras gerações, tem trazido, em partes, o retorno de velhas práticas, como relatado nos episódios acima.

Acredito que dentro de pouco tempo com o recrudescimento da preocupação com o meio ambiente, as empresas, as pessoas, o governo e o comércio resgatarão ainda mais velhas práticas que são mais sustentáveis do ponto de vista ambiental, como já faz, por exemplo, uma pequena loja localizada em Londres.

Na Unpackaged (http://beunpackaged.com/) não é vendido nenhuma embalagem junto com os seus produtos (a venda é feita a granel) e os clientes levam seus próprios compartimentos para carregar todos os itens comprados. São frutas, verduras, legumes, condimentos, azeite, grãos, produtos de higiene pessoal e de limpeza, biscoitos, cafés e outra variedade de produtos vendidos da forma como vieram ao mundo, ou seja, sem plástico, isopor, alumínio nem nenhum outro material envolvendo-os. 

Espero, em breve, que a experiência londrina possa ser importada pelo Brasil. Aqui essa nova prática de consumo provocará nas pessoas não só uma mudança na forma de comprar, mas também uma reflexão sobre o consumo e sobre o meio ambiente.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Além de uma simples história infantojuvenil

A paulista Maria José Dupré é sempre lembrada pelo seu romance adulto "Éramos Seis", publicado em 1943 e que recebeu inúmeras adaptações para o cinema e para a televisão. A mais conhecida foi a novela homônima produzida e exibida no SBT entre maio e dezembro de 1994 e que particularmente eu considero a melhor novela produzida até então pela emissora de Sílvio Santos.

Mas a escritora também tem uma grande quantidade de livros publicados para o público infantojuvenil, destacando a série de livros cujo protagonista é um cachorrinho que rodou alguns locais brasileiros chegando, pasmem!, até a Rússia. Trata-se do cachorro Samba, personagem principal de seis livros, publicados entre as décadas de 1950 e 1970.

O auge da carreira da escritora ocorreu na década de 1940, época em que ela escreveu a maioria dos seus livros adultos e infantojuvenis. Foi nessa década que foi publicado o livro "A Ilha Perdida" que integra o bem sucedido projeto da série "Vaga-Lume", organizado pela Editora Ática.


Entre os escritores é quase unânime a ideia de quão difícil é escrever para o público jovem. Muitos têm na mente que as suas histórias obrigatoriamente deverão deixar alguma mensagem de ordem moral para os jovens, por exemplo, mas eu acredito que a literatura infantojuvenil, na sua essência, não tem essa pretensão, apesar de observar que isso ainda paira na cabeça de muitos escritores.

Deve-se transmitir uma mensagem ou não para o jovem, compreendo que é um desafio atingir esse público. Por isso, que de vez em quando, seleciono para a minha leitura, livros infantojuvenis na tentativa de analisar aspectos técnicos da história, como, por exemplo, como que o autor costurou a história, desenvolveu a trama, construiu os diálogos, os personagens, o contexto, as paisagens entre outros. Daí a minha leitura da obra "A ilha perdida".

O livro é uma aventura ambientada no interior de São Paulo, aonde duas crianças foram passar as férias e se encantaram por uma ilha misteriosa no meio de um caudaloso rio. Decidem, então, explorar a ilha por conta própria iniciando uma aventura emocionante, cheia de suspense, perigos e tensão, aspectos que permearão toda a história. 

Da metade da obra até o final, o leitor fica tenso e ansioso sobre o que acontecerá com as duas crianças. Sozinhas numa grande ilha deserta passam por situações bem complicadas. Essas situações são exploradas muito bem pela autora como forma de deixar várias mensagens de cunho moral para o leitor, como obediência aos mais velhos, respeito aos animais e vegetais e a preservação da natureza, temas que depois de 69 anos da publicação do livro ainda são discutidas em nossa sociedade. 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Um escritor apaixonado pela pauliceia desvairada

Se algo devo ter fixado neste livro, deixado explícito, pelo menos tentei, foi a luta de um escritor, que não veio das camadas privilegiadas da sociedade, para manter seu ideal, apesar de todas as suas adversidades
Marcos Rey

É mais comum lermos biografias escritas por terceiros. Inclusive, há tempos existe uma polêmica sobre esse gênero literário, pois alguns escritores acabam por divulgar fatos, até então encobertos, da vida alheia de alguém sem ter sido autorizado para tal. Daí o início de batalhas judiciais contra o escritor, promovidos quase sempre pela família do biografado ou pelo próprio biografado. 

Fonte: Global Editora

Uma forma de evitar dissabores causados por biografias, muitas vezes escritas sem muito rigor na pesquisa sobre os fatos da vida de uma pessoa, é a própria pessoa se debruçar sobre o seu passado e produzir uma autobiografia e foi isso que o escritor Marcos Rey fez em 1997, quando lançou o seu livro autobiográfico O caso do filho do encadernador - romance de vida de um romancista, publicado pela Global Editora.

A obra, além de nos inserir na trajetória pessoal e profissional do escritor, nos possibilita entender o processo de chegada do rádio, da televisão e das agências de publicidade. Marcos Rey trabalhou nesses três ambientes e colecionou várias histórias que foram, mais tarde, matérias-primas para o desenvolvimento de vários de seus romances, contos e crônicas. 

Como estudante de jornalismo, apreciei o relato do escritor sobre os bastidores do rádio e da televisão. Desde sempre ambientes muito glamorosos, mas muito hostis para os redatores, que eram demitidos ao menor sinal de baixa audiência (parece que isso não mudou muito nos tempos atuais).

Quando admiramos um grande autor, temos por curiosidade saber quais os escritores que os influenciaram. Para descobrirmos, nada melhor que lermos uma biografia e com Marcos Rey não foi diferente. O escritor ao longo do livro vai nos informando os livros e os nomes dos autores que tiveram influência em sua formação. O que eu mais admirei foi a grande quantidade de autores estrangeiros em detrimento dos nacionais, estes, limitados a alguns poetas.

Tempos atrás pensei que o escritor era especialista em romances juvenis, mas com a leitura da presente autobiografia, descobri um autor profícuo e versátil, que transitou em praticamente todas as modalidades textuais pertencentes ao gênero narrativo, como o romance, a novela, o conto e a crônica. 

É um autor que eu estou ainda por descobrir e essa descoberta já foi iniciada com O caso do filho do encadernador, que traz no final várias páginas com todas as suas produções. Sem dúvida, se Marcos Rey ainda estivesse vivo, as últimas páginas da sua autobiografia a cada nova edição precisariam ser aumentadas pela rapidez com que ele escrevia e publicava novas e gostosas histórias, sempre tendo a cidade de São Paulo como pano de fundo, cidade que fez sua vida e pela qual se apaixonara.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O universo de "Saramandaia" é tema de seminário


Em parceria com a Globo Universidade, e com o apoio do Centro de Estudos de Telenovela, a Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA) promove, no dia 29 de agosto, o seminário O Realismo Fantástico em Saramandaia.

Com sua origem na obra do venezuelano Arturo Uslar Pietri e auge nas criações do colombiano Gabriel García Márquez, o realismo fantástico que inspirou Dias Gomes e diversos autores latino-americanos será tema do debate.

O evento conta com a participação do autor da atual versão de Saramandaia, Ricardo Linhares, do pesquisador Mauro Alencar e da professora Ana Lúcia Trevisan, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. O jornalista Edney Silvestre fará a mediação do encontro.

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até o dia 28 de agosto pelo e-mail globo.universidade@tvglobo.com.br.

O credenciamento acontece a partir das 9h, no dia do evento. Serão fornecidos certificados aos participantes.

O Realismo Fantástico em Saramandaia
Data: 29 de agosto
Local: Auditório Paulo Emílio (prédio central da ECA)
Horário: 9h30

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Um romance infantojuvenil, mas também para os adultos

Ainda não sabia ler quando eu peguei pela primeira vez em minhas mãos o livro O mistério do cinco estrelas escrito por Marcos Rey.

A capa com um prédio e a sombra de uma mão empunhando uma faca nele com o rosto de um garoto assustado no primeiro plano, me chamou a atenção (e alguns dizem por aí que uma capa não faz muita diferença num livro). Ao folheá-lo, lembro-me que fiquei por vários minutos olhando as figuras e, a partir delas, fui elaborando a história em minha mente.



Anos depois, já alfabetizado, tive a oportunidade de ler o livro. A história me fascinou pelos elementos de suspense, ação, aventura e de investigação policial, tendo como pano de fundo a cidade de São Paulo. Marcos Rey sempre foi um apaixonado pela cidade e de uma forma ou de outra, na maioria dos seus livros, buscou homenageá-la. O seu amor por São Paulo era tão grande, que ao morrer, a sua esposa, do alto de um helicóptero, decidiu jogas as cinzas de Marcos Rey sobre a cidade que sempre o inspirou a escrever.

O livro é direcionado para o público infantojuvenil, mas de forma alguma isso é um impeditivo para os leitores mais maduros apreciarem a história, que se desenrola de uma forma que prende o leitor pela atmosfera de mistério construída pelo autor.

Tudo começa com um corpo encontrado por um jovem mensageiro num quarto de um famoso e rico hóspede de um luxuoso hotel de São Paulo. Mas de quem seria aquele corpo? Qual o motivo dele estar ali, debaixo da cama de um homem rico e famoso? Alguém acreditaria na história contada por um jovem mensageiro?

A partir daí a história se desenrola de forma impressionante. Leo, o novato mensageiro do hotel resolve investigar por conta própria e faz descobertas incríveis que tornam a sua vida um verdadeiro inferno. A história, então, torna-se bastante tensa e isso é levado até o fim dela. Sempre fica a sensação de que algo surpreendente vai acontecer. A ansiedade e a expectativa leva o leitor a sempre querer saber mais e isso faz com ele devore os capítulos.

No livro autobiográfico de Marcos Rey, O caso do filho do encadernador3ª ed., São Paulo: Global, 2012, num trecho (p. 219) o autor comenta sobre o livro:

"Dois meses após o lançamento de O mistério do 5 estrelas, Anderson [dono da editora Ática] me comunicava: a primeira edição esgotava-se, já iam rodar mais 100 mil exemplares. Segundo alguns jornais, foi o best-seller daquele ano de 1981, e até os dias de hoje vendeu um milhão de cópias.

Grande vendagem não assegura que um livro seja bom; muitas vezes prova até o contrário. Mas no meu caso o êxito apontou-me um novo caminho e uma grande fonte de prazer. Passei a escrever anualmente um romance para a juventude".

Nessas férias resolvi reler o livro e também ler a autobiografia do autor (O caso do filho do encadernador) comprada no estande da editora Global no último dia da Bienal Internacional do Livro de São Paulo ocorrida no ano passado.

Foi maravilhoso reler O mistério do 5 estrelas. A cada livro que nós relemos, acabamos descobrindo uma nova história e elementos presentes na narrativa que anteriormente não havíamos prestado atenção. Nessa releitura, pude perceber o quanto o autor escreve de forma ágil, prática e de fácil entendimento. É uma linguagem simples, mas profunda. Num livro de apenas 128 páginas, o autor conseguiu construir uma história envolvente, sem sobressaltos, sem idas e vindas e descrições desnecessárias de ambientes e dos personagens. 

Também li, em seguida, o livro O caso do filho do encadernador, que é a autobiografia do autor. Conheci um pouco mais da vida desse criativo e profícuo escritor paulistano, que somente conseguiu, enfim, viver de literatura num país que se lê tão pouco, quando já estava próximo dos seus 60 anos. 

Morreu em 1º de abril de 1999, aos 74 anos e deixou uma grande variedade de outros romances adultos e infantojuvenis, crônicas e contos que eu pretendo ler. Enfim, é um escritor que ainda eu quero descobrir.